Feriado é dia de nada fazer. Entretanto, em feriado santo, como hoje, é salutar reservar algumas horas à oração, compunção, reflexão e entrega espiritual.  Se estiver chovendo, claro. Senão, é bem difícil resistir à tentação do sol vespertino e da brisa alísia que vem do mar. Melhor ainda é combinar o ato de contrição à sombra farfalhante dos coqueiros.

Existe, porém, quem trabalhe nesses dias. Como este pobre cristão escriba, que já havia desistido de enfadar-vos com lamúrias do cotidiano empedernido, ou crônicas sobre a amoralidade que infesta esta Província Dendezística, de lonas que se rasgam ante ao desígnio dos céus, em maios cinzentos como este que finda.

Na verdade, vencido pelo cansaço e falta de inspiração, havia planejado passar o dia sob as cobertas, ouvindo Marjorie Estiano em repeat infinito. Só Deus pode me julgar.

Eis que, recém-convertido à Igreja PL da Cura Pela Palavra, recorri ao Totem Supremo, em desesperado apelo por um sopro de maviosidade a uma alma errante.

E ele, Fernando Pessoa, não falhou. Revelou-se, contudo, em forma nova, portentosamente feminina, venerável a este mês de noivas e Marias, como a corcunda que escreve esta carta, apaixonada e lamuriosa, a um serralheiro.

“…O senhor nunca há de ver esta carta. Nem eu a hei de ver pela segunda vez, porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe, ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

Não conheço forma de desabafo mais airosa que uma carta de amor. Não há sopro de alívio mais enternecedor:

“… Adeus, senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a ti. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir, porque eu sei que não posso esperar mais.”

A carta completa você pode ler aqui. Suplico, no entanto, para que opte pela versão em áudio, feche os olhos e deixe-se conduzir pela narração aportuguesadamente venusta de Maria do Céu Guerra.

E se ao final da audição, você sentir um aperto no coração, uma aflição regurgitante no peito, não se desespere:  A poesia existe para que o tormento ache o céu, e o desejo ache a terra. Enquanto vagamos pelo Purgatório.

 Alex Rolim escreve às quintas, mesmo nos feriados

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