Sentei já todo gaiato agora há pouco na frente do computador decidido a contar-lhes hoje a história da diarista da casa de minha sogra, que botou o marido no jeito na base do cipó quando o flagrou dando uns amassos numa sirigaita desenxabida detrás da igreja.

Mas acontece que vou ter que lhes pedir desculpas, não vai dar: caí na besteira de dar uma folheada nas internets antes de começar o relato, e li uma notícia que me levou a graça embora.

O título era “Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas”, na BBC Brasil. Falava em geral dos problemas da implementação do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mesmo tendo-se passado já dez anos da lei que determina a obrigatoriedade do dito cujo.

A matéria está bacana, honesta, normal. Tem, ademais, minha adesão ideológica: hoje mesmo comentava com o pessoal que, se alguém diz “macarronada”, logo pensamos na pequena Itália; falou “bacalhau”, acionamos o minúsculo Portugal; mas, se alguém diz “acarajé”, contentamo-nos com a idéia genérica e imprecisa de “África” – como se África fosse uma coisinha miúda, um vilarejo na beira da estrada, a primeira quebrada à direita depois que passa Feira de Santana.

Enfim: o que me roubou o bom humor foi o comentário de um cidadão que se identificou como “Diego”, “filho de negro com branco”, no pé da reportagem. Transcrevo: “Meu filho tem que aprender matemática, literatura portuguesa. Não é porque o Brasil teve um período escravagista que ele tem de estudar sobre a cultura “afro-brasileira”. Perda de tempo estudar isso, o ideal é substituir essa parte para aprender outro idioma. Pois assim estaria mais preparado para encarar a vida no resto do mundo. De preferência o idioma inglês, mais falado no mundo todo. Empreendedorismo, biologia na prática, etc… Estudar cultura afro-brasileira é perda de tempo e não prepara as crianças para a vida, para esse mundo do cão.”

Diego, meu camarada: aí você pegou pesado. Talvez tenha sido só uma fala infeliz essa sua, mas arrisco dizer que gente que pensa assim como você pensou nessa fala reproduz um esquemão colonial secular, que é justamente o que mais precisamos superar (muito embora com toda consciência): de um lado, um mundo globalizado, moderno, competitivo, que requer conhecimentos funcionais que nos “preparem para encarar a vida no resto do mundo”; de outro, um mundo tradicional, ancestral, “africano”, que é até curioso e tal, mas que a rigor não serve para nada, afinal essa história de escravidão já passou faz é tempo, vamos deixar isso para lá, para depois, para nunca, no fundo do baú.

Não sei, Diego, em que parte de “ensino de cultura afro-brasileira” pessoas que pensam como você nessa fala lêem “em detrimento do ensino de tudo o mais necessário para se viver nesse mundo cão”. De contrabando nesse seu argumento, parece haver uma idéia atravessada de que aprender sobre a África significa praticamente arriscar-se a uma espécie de “reescravização”. E mais: que basta ir branqueando, quando não a pele, o jeito de ser, de pensar, de viver, no passar das gerações, para superar a tragédia que foi esse “um período escravagista” que durou mais de 300 anos nesse Brasil.

Qual nada, Diego: precisamos saber mais – quando digo mais, é ao nível corrente da conversa mundana, no nosso dia-a-dia de arraia miúda – sobre a África sim, porque precisamos entender um tiquinho melhor e respeitar mais trejeitos, costumes, heranças africanas que estão no nosso dia-a-dia, mas que ignoramos ou tomamos por simples e “genuinamente brasileiros”.

Precisamos saber da África, Diego, porque em cada pedaço dela existem povos e culturas diferentes, tantas quantas – ou provavelmente mais que – as que existem nos retalhinhos da miuditica Europa. Será que ignorá-los nos ajuda a aprender melhor o inglês?

Precisamos saber da África, meu bom Diego, porque o cabelo encaracolado do garoto entrevistado nessa matéria que você leu tem origem, tanta e igualmente humana origem quanto os cabelinhos escorridos meio alourados dos coleguinhas que provavelmente lhe puseram o apelido de “Bombril”. Não, Diego, não vamos pedir ao garoto que simplesmente não dê ouvidos aos coleguinhas bobos – porque ante a discriminação não dá para se fazer de surdo, porque dói; discriminação é uma desgraça, Diego – você sabe.

Em vez disso, que mal há em pretender que se ensine (falo ensinar à vera, não só por “3 meses, por 30 minutos a cada 4 dias apenas”, como você propõe) a toda essa molecada de tudo quanto é cor que na África existem povos que são tão povos quanto qualquer povo de pele clara desse mundo, e que muito do que somos descende diretamente de alguns deles, os quais portanto merecem tanto respeito e reverência quanto qualquer outro?

Enfim, Diego, precisamos saber da África por muitos outros mais motivos. Para encurtar conversa: você me deixou de mal humor, cara. E privou meus leitores das risadas que dariam com a história ótima do cipó do amor. Estamos todos putos contigo, Diego. Abre o olho.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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