-Deixa eu cuidar de você. Eu quero cuidar de você.

Pediu em tom de súplica. Os olhos amendoados fixaram o rosto dele, e de tão enternecidos pareciam ainda mais belos, pupilas dilatadas e irís cor de mel. Ele a achava linda, adorava o toque daquela tez cor de bronze e a chamava de princesa argelina, impressionado com a majestade que ela desfilava quando a viu com um torso de motivos africanos.

Ela não sambava bem – isso até que podia ser um defeito, mas era curioso como havia uma graça singular no jeito descompassado com que movia os ombros e quadris e no passo miudinho de seus pés. Foi sambando que a conheceu e talvez por isso tenha feito vistas grossas para aquela dança desengonçada. O encantamento fez com que ele relevasse aquela imperfeição, sim não saber sambar era um defeito na opinião dele.

E foi o único defeito que ele identificou nela. Passaram-se meses, viagens, encontros furtivos, sessões de cinema e outras mumunhas de enamorados sem que ele se aborrecesse com a personalidade dela. E era difícil agradar um chato como ele, mas havia uma sintonia, uma aproximação que sublimava qualquer conflito. Ela não se esforçava para tanto, era só ela, do jeito dela, sob encomenda para enfeitiçar ele.

E exalava uma fragrância almiscarada quando eles se amavam, que invadia todo quarto, toda cozinha, toda sala. E não dissipava e embevecia cada móvel, cada almofada, e invadia as páginas dos livros, as poesias de Neruda, as confissões de Bukowski, os romances de Machado. E eles eram testemunhas do furor que não se continha nem se extinguia.

E ele, contido e acanhado, sussurrou que a amava e ela ouviu e quis ouvir de novo, e ele não mais teve forças para falar e emudeceu.

E tudo mudou, ele cada vez mais arredio e ela cada vez mais agastada.

Foi então que pediu para cuidar dele. E esperou a resposta por meses. Que não veio.

E ela escreveu uma carta para canalizar toda ira. Tinha essa mania de escrever o que sentia e escrevia a lápis e não endereçava a ninguém. Deixou que ele lesse, mas não deixou que ele ficasse com ela (nem a carta).

Em cada linha havia um tom de frustração, ainda que atenuada pelo carinho que nutria por ele. As mãos dele tremiam enquanto devorava os parágrafos e ele se reconhecia em casa locução. Não era uma elegia, tampouco um réquiem, eram as palavras de alguém que o conhecia como talvez nunca ninguém o conhecerá. Um testamento vivo de seus medos, angústias e idiossincrasias.

Ela se foi, e levou a carta.

E ele esqueceu de tudo até o dia que leu o bilhete de Johnny Cash para sua segunda esposa, June Carter.

E teve certeza que ser amado é muito mais difícil do que parece. E entendeu porque ela se foi. A chama que envolve um casal precisa de muito mais que desejo.

Mas ele ainda sente falta do odor almiscarado pela casa.

                                                                                                                                                                                        Alex Rolim escreve aos sábados

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