Viúvo, sem filhos, recém chegado do Morro do Chapéu na Piritiba dos anos 1940. Todas as moças atrás de um marido botaram seus vestidos de ver Deus para fazer boa figura. Aquela sem sorrisos, meio andrajosa, passada da idade aos 25 anos, foi a que lhe chamou atenção. Nada disse a ela. Apenas procurou o seu pai e acertou o casamento para dali a um mês.

Não era dado a filosofias ou política. Ia à igreja, mas era como se aquilo fosse parte da vida, como lavar as mãos após ir ao banheiro. Eram os ditados populares que guiavam sua existência. O mais caro para si era aquele que diz “quem fala demais dá bom dia a cavalo”.

Por isso nunca foi conversa. Nem de gaitices. “Tá conversando?”, perguntava com a voz rouca para reprimir falastrices.  “Coma mais e converse menos”, dizia aos netos na mesa. Era econômico com as palavras. E diziam, sempre às suas costas, que também era com o bolso. Que tomava banho de chuveiro com uma bacia aos pés, para reaproveitar a água.

“Bestage”, ele diria. A maledicência nunca foi comprovada, embora na velhice fosse costume sair sempre desligando as luzes dos cômodos da casa. Com dez filhos para criar, vestir e dar de comer, seria difícil não adquirir hábitos austeros ao longo da vida. Ainda quando morava no interior, era um dos poucos (talvez o único) entre os comerciantes da cidade que abria a bodega no fim de semana. Quando lhe perguntavam, “seu Arlindo, porque o senhor não descansa no domingo?”, ele respondia “pra não lhe pedir nada na segunda”.

Só na grosseria se encontrava o humor do homem. Suas risadas eram espasmos de ar, sons de “esse” entrecortados, escapando a contragosto entre os dentes cerrados. A coisa mais rara. Isso até o primeiro derrame de sucessivos que lhe roubaram a vitalidade, mas que, sob a carranca, lhe abriram a possibilidade do ridículo. Passou suas últimas tardes na poltrona reclinável vendo Chaves e se entregando ao riso, talvez com certo lamento por ter levado uma vida de tanto siso.

Pedro Fernandes é o convidado especial desta sexta

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