Por Reginaldo Pujol Filho

Quem já trabalhou em escritório, empresa, firmas em geral, já deu de cara com ele. Entrou no banheiro e lá estava ele. No canto da pia, sobre a divisória dos mictórios, ou já blowing in the wind, ele está lá, o tubinho de Bom Ar.

Um dos produtos mais intrigantes que eu conheço.

Alguém me perguntará por quê (espero que pergunte, senão o texto não segue).

É que a disseminada utilização do Bom Ar e seus correlatos em WCs , vamos combinar, é incompreensível. Aliás, daria pra dizer que o Bom Ar é a comprovação do altíssimo nível de analfabetismo funcional aqui nas plagas do país tropical. Senão vejamos:

Primeiro:

O Suposto Leitor, diga aí pra mim, lá no teu suado empreguinho, quais são as atividades prioritárias que tu realiza quando vai ao sanitário? Não, não precisa responder, camarada. Só pensa. Somos humanos, a fisiologia afirma que devemos fazer mais ou menos as mesmas coisas. Pois bem: continue com a sua necessidade na cabeça e acompanhe o seguinte: numa das firmas em que trabalhei, um dia peguei o tubo do exorcista de odores do banheiro e percebi que o dito ostentava, orgulhoso, com ilustrações e letras multicoloridas, sua alta eficácia contra os odores de:

1) tabaco;
2) mofo;
3) e gordura.

E hoje, hoje mesmo, vi um que dizia nas indicações de uso que ele vence idem gordura, idem mofo, idem cigarro e, vejam só, avanço, odores de animais domésticos. Pues bem, relembre o exercício mental: o que mesmo você vai fazer no banheiro da firma com o jornal debaixo do braço? Quero dizer assim, pra que esses produtos sejam eficientes no sanitário, ou o sujeito almoça num ambiente fumarento, ou come um roquefort bem mofado, ou um a fritada gordurosa, ou leva seu bichinho pra passear no banheiro enquanto resolve sua fisiologia. Porque são esses os cheiros neutralizados pelas fragrâncias perfume de nenê, ares do campo ou sonata campestre. Pergunto, com o perdão da escatologia: alguma vez tu já produziu ou sentiu no W.C. cheiro de tabaco, gordura, mofo ou Rex? Se, sim, procura um médico.

Se não, há de concordar comigo que a escolha do produto é funcionalmente analfabeta. Mas a coisa não para por aí.

Segundo:

Digamos que o tal Bom Ar está lá num ambiente tomado de fumaça de cigarro, empesteado de gordura, atopetado de mofo, com dezesseis cachorros molhados correndo atrás de 27 gatos imundos. Buenas, quem comprou o tubinho de spray talvez não seja analfabeto funcional e sabe que odores vai eliminar. Mas é possível que seja míope ou um alguém sem curiosidades nessa vida. Ao contrário de mim, que sou míope (mas uso óculos) e sou muito curioso. Pergunta: Já leu as letrinhas pequenas sobre as informações de uso do Bom Ar? Bem, como diria o próprio Bom Ar, cuidado:

“Evite a inalação, aspiração, contato com os olhos e contato com a pele[…] Cuidado! Perigosa sua ingestão. Não inale.”

E não esqueça:

“Em caso de contato com os olhos, lave imediatamente com água em abundância. Em caso de contato com a pele, lave imediatamente com água em abundância.”

Quer dizer, a gente põe isso no ar e não pode inalar, não pode entrar em contato com a pele, não pode entrar em contato com os olhos, não pode apontar pra pele, pode? Parece mais Napalm perfumado. Parece comida que faz mal se for ingerida; Música que faz mal pros ouvidos (se bem que isso tem várias); ou, sei lá, óculos que prejudicam a visão.

Remeto pro início do texto: é ou não um produto intrigante, um paradoxo embalado? No mínimo, tem algo estranho no ar.

Reginaldo Pujol Filho é o convidado excepcional desta segunda-feira. Davi Boaventura está, neste exato momento, na praia e volta em 15 dias.

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