Eu lembro, de tudo. Te encontrei num site duvidoso e nem em seu próprio nome pude confiar, porque o desconhecia. Um risco.

Contrariando coletivas previsões pessimistas, você chegou sem atraso e, ainda por cima, funcionou. Para evitar decepções futuras, tive pra mim que a gente ficaria junto por pouco tempo. Mas o que aconteceu, gravador meu, é que convivemos por longos oito anos. Talvez nove. Não sei dizer se cachorros vivem mais que isso.

Ontem você morreu. Estava fazendo uma entrevista e você indicou falta de espaço. Interrompi a conversa para explicar o que acontecia e prometi ligar logo de volta, assim que apagasse os seus arquivos. Foi o que eu fiz, mas você, mesmo vazio de declarações, pacífico como mente iluminada, ainda estava cheio. E eu entendi que não era um problema de disco que pudesse ser consertado, mas um cansaço metafísico.

Quando te usei a primeira vez, você registrou o que meninos da roça, moradores de assentamentos do MST, queriam da vida. Era bucólico e triste. Foi difícil ouvir depois, porque tinha sempre um bebê que chorava mais alto do que as pessoas falavam e uma delas era fanha ou gaga. Eu e Danilo Fraga, que fazia a reportagem comigo, praticamos bullying jornalístico tentando reproduzir o jeito que o rapaz conversava:

Ele jurou que não tem medo de ”lobi*oni” e que já foi “*unhado” por uma onça.

Depois vieram dezenas de outras gravações, como a entrevista com Contardo Calligaris em que ele diz que tudo que uma pessoa precisa é de um amor que a busque em Kuala Lumpur, e o perfil com Riachão em que ele chora dentro de você com saudades da sua Dalva, morta num acidente de carro para deixá-lo só plantando bananas e tomando Fanta.

Você tinha a distinção de gravar conversas telefônicas e era por isso muito assediado. Eu o emprestava com um pouco de ciúme, confesso. Outra marca sua era ter dois pedaços amarelados de durex por cima do lugar onde se colocam as pilhas, o que não me envergonhava de jeito nenhum, porque isso te dava personalidade. 

Nas horas vagas, a gente se divertia preservando risadas, declarações de amor e cantorias para a eternidade, como aquela em que Caetano Veloso entoa o hit “Ai Se Eu Te Pego” com o glorioso auxílio do meu amigo Pedro Fernandes.

Esse texto é uma tentativa de te condecorar pelos serviços prestados. É como se eu tivesse te enterrando numa cova rasa com uma florzinha rosa do lado.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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