“E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas. E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não tem vinho.
Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. 
Sua mãe disse aos serventes: fazei tudo quanto ele vos disser.
E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus e em cada um cabiam dois ou três amuldes. Disse-lhes Jesus: Enchei d’água essas talhas. E encheram-na até cima. E disse-lhes: tirai agora e levai ao mestre-sala.
E levaram.
O mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já tem bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele”.
 
João 2:01-11

Você lembra deste texto??

Foi o texto sagrado usado pelo padre no casamento do teu primo. Ele explicou naquele dia que usou este texto para lembrar aos noivos que nenhuma relação era feita apenas de facilidades e que, com o passar do tempo, as discussões, a rotina, as discordâncias e as brigas poderiam fazer com que o “vinho” da “festa” acabasse. Entretanto, respeitando o Evangelho, ele também disse que quando o amor é verdadeiro e quando o casal tem fé em Cristo, o Mestre pode transformar a água que purifica no vinho que traz alegria e felicidade. E não em qualquer vinho. Em um vinho melhor que o do início.

Foi pensando nisto durante esta semana, que eu refleti sobre o tempo que estávamos juntos. Desde o início que não tem sido muito fácil, resistindo a nossa união (digo que pelo menos da minha parte e acredito que também da sua) pelo amor que nasceu e cresceu.

Primeiro, as cobranças de minha família, a não aceitação de meus pais, a sua dificuldade financeira. Fosse apenas isto, acredito que tiraríamos de letra a situação, já que você hoje superou a crise e eu, desde o início, não pestanejei em literalmente enfrentar a quem fosse que se opusesse ao fato de estarmos juntos.

O pior, na verdade, foram as interferências. E destas, não fomos poupados desde o início, por gente que,  de uma forma ou de outra, não teria nenhuma VANTAGEM em nossa união, seja do meu lado ou do seu.

Não que fôssemos o casal mais bonito, mais cobiçado, mas acredito sim, por um complementar aquilo o que no outro faltava. Nas nossas falhas é que muita gente tirava vantagem… Não me prolongarei nisto, se você refletir só um pouco, saberá do que estou falando.

Nada disso teria acontecido, se nós não tivéssemos deixado brechas. Principalmente eu. Se eu, mesmo ouvindo os absurdos que falavam de ti, enfrentasse, refutasse e te contasse, algumas de nossas piores brigas não teriam acontecido.

Do meu lado, sem maturidade de enxergar que o erro estava em mim, esperava que você me contasse sobre sua vida, sendo que você não tinha obrigação nenhuma disso e que nem eu mesmo já contei tudo da minha pra você.

Fui muito ORGULHOSA durante todo este tempo. Me revoltava ver as pessoas me contando “novidades” de sua vida, como se eu fosse uma menina besta, nas mãos de um cara muito vivido.

E isso não cansaram de fazer, até ao ponto de me desgastar. Porque sabiam que me incomodava e esse incômodo chegaria até você. Sabiam que você não gosta de cobranças, não gosta de falar de teu passado, e, por isso, brigaríamos. Hoje vejo que nada foi à toa, mas nada teria acontecido se EU não desse brecha. Ou seja, os outros tentam, mas se conseguem, a culpa é nossa. Ou minha, no caso. Ainda que por ingenuidade.

Além das interferências – que já conversamos – houve muita falta de diálogo. Acredito que isso é consequência  de um traço forte que temos em comum que é a discrição. Talvez eu mais que você. Ou talvez, eu tenha sabido quebrar tuas reservas mais do que o inverso.

Sempre imaginei que te poupar dos meus problemas seria melhor para o nosso convívio. Sempre tentei ao máximo poupar qualquer pessoa de meus problemas. Não por mal, mas como uma forma de proteção, para não te preocupar.
  

Hoje vejo que estava completamente equivocada. Sempre estive pronta para te ajudar, mas não te dei oportunidade de fazer o mesmo por mim. Quando desabei no meu poço de problemas, foi difícil para que você entendesse. Você não conhecia suficientemente as minhas fraquezas.

Aprendi também a me proteger mais emocionalmente, a me tornar um pouco mais “egoísta” – no bom sentido (?) – e a reconhecer o valor que tenho e não esperar que me valorizem.

Depois de segunda-feira e da forma como encerramos a conversa, não vou te negar, fiquei muito magoada. E ainda estou, porque ao contrário de você que é muito racional, eu sou muito sensível. Quase ligava pra você de novo, pra dar um basta, tamanha a raiva que senti da frieza com que você me tratou, mas como eu não estava sob controle de meu juízo, preferi me serenar.

E foi assim que cheguei à conclusão de que como as coisas estavam realmente nunca daria certo. Só se nós recomeçarmos. Mas como recomeçar se a gente não pode apagar o passado?? Perguntei-me isso e conclui novamente que mesmo assim, se tivermos disposição ainda, só recomeçando com CUMPLICIDADE, RESPEITO e AMOR.

E eu, da minha parte, já estou me transformando. Só este desabafo já é um sinal, pois você não sabe o quanto eu relutei para te escrever isto. E o melhor, estou mudando por mim, a única mudança válida na vida, pois enxergo agora defeitos e luto contra vícios que eu não tenho mais como ignorar. Estou aprendendo principalmente o desapego.

Poderia te escrever aqui que não me importo com a gente, que não moverei mais uma pedra por você, mas estaria sendo falsa.

Agora, voltando pro início desta carta, te digo que tenho pedido a Deus que, se o nosso amor é verdadeiro, que Ele me dê força, sabedoria e coragem para enfrentar a mim mesma e que transforme a água em vinho pra nossas vidas. E que deste assunto (das brigas) eu retenha somente as lições, pois lembrá-lo novamente não quero mais.

Preciso ainda dizer que te amo?

P.S.: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” – 1Coríntios 13:13

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