Ele nunca a esqueceu. Nunca parou de pensar nela. Talvez fosse apenas a reminiscência de um tempo que era mais feliz — ou achava que era, que as preocupações eram mais pueris, que a única incerteza era o curso da faculdade que desejava fazer. Bobagens que afligem um pré-vestibulando, tateando na arte de ser adulto.

Naquele tempo, ele se lembra, era difícil não acreditar que as coisas dariam certo. Como duvidar de um futuro feliz, daqueles de propaganda de margarina, ao fitar aqueles olhos doces, reluzentes, duas pequenas bolas de gude destacadas acima das bochechas elevadas por um sorriso quase constante, enigmaticamente simétrico, com as elevações dos cantos da boca perpendicularmente separadas das covinhas da maçã do rosto por um apótema? Entre senos, cossenos e catetos, nada era mais tangente que aquela beleza emoldurada por belos cachos espirais daqueles cabelos castanhos — tipo macarrão parafuso – e por um rosto abaulado como uma tampa de baú seccionada ao meio.

Passados quinze anos ele ainda se pergunta o que fez de errado. Não entende a repulsa que ela demonstra a qualquer tipo de aproximação que ele tenta. A separação não foi traumática, a ruptura nunca lhe pareceu conclusiva. No fundo essa incerteza alimentava o desejo de retomar aquele sentimento que, na sua opinião, só estava adormecido.

Pela terceira vez na última década ele decidira: Iria tentar uma reaproximação.

 ***

Prostrado no sofá vendo futebol, não percebeu quando o celular vibrou com uma nova mensagem. Ao pegar o xinguelingue para checar as horas intermináveis que não passavam, deparou-se com a mensagem:

Irene –> Oi Daniel. Não tenho mágoa, nem rancor nenhum de vc. Não guardo sentimento negativo algum. A relação acabou porquê faz parte da vida. É bom que acabe, quando existe uma incompatibilidade de natureza, para que ambos sigam seu caminho e vivam na paz.

De pronto, responde:

A relação acaba, mas a amizade fica. Em nosso caso, nem a amizade restou, era apenas isso que gostaria de entender. Por quê?

Três minutos intermináveis. Brrrrrrrrrrrrrrr.

Irene –> Talvez porque a amizade não tenha sido construída. Amizade acontece naturalmente…É espontânea…Ou se conquista ou não. Relaxe quanto a isso. Siga sua vida tranquilamente e esqueça esse assunto. Não tenho raiva de você. Passar bem.

***

Se você chegou até aqui esperando um final convencionalmente feliz, esqueça. Se esperava um desfecho hollywoodiano ou um plot-twist, lamento decepcioná-lo.

Essa mini-biografia sequer se refere a uma história de amor. É uma história [real] de apego.

Apego serve como muleta para nossas frustrações. Serve para projetar no outro, ou numa situação – no presente ou passado – uma responsabilidade que só deveria caber a nós: Assumir nossas fraquezas e exterminar nossos fantasmas e neuras.

Se eu pudesse dar um único conselho a vocês, seria:  Mais desapego, por favor.

Alex Rolim relata histórias reais às quintas

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