Tava caçando formiga no oitão de casa e desejando vingança a tio Joaquim, que só apareceu pra fazer fofoca. De uma fresta no adobe, viu a mãe tirando a caçarola do armário e imaginou tio Joaquim reduzido a uma codorna, tio Joaquim fritando em gordura quente até que seu couro criasse bolhas crocantes e ele virasse um tio a passarinho.

Uma saúva desviou novamente sua atenção para a parede, traçava um caminho curvilíneo em direção ao telhado e carregava nas costas uma bituca de cigarro Continental. Acompanhou o trajeto da formiga, era outra que trocava erva fresca por alcatrão, e desejou milhares de saúvas enterrando suas mandíbulas em tio Joaquim, até que tio Joaquim se resumisse a um imenso plástico-bolha de mordidas de saúvas; e que sua língua, principalmente sua língua, fosse o maior alvo delas.

Quando botou os olhos na calha, daquele plano viu uma cruz no céu. Providência Divina para o mal que desejava ao irmão de seu pai, que era padre e tinha dom de ler pensamento, só pode ser. A cruz mudava de posição cuspindo fumo pelo rabo e emitindo um som aterrorizante, eita desgraça, mãe, corre, vem ver, meu Deus, meu Deus, me perdoa, me perdoa, e todos correram pro alpendre por causa da gritaria do menino; a mãe, as meninas, as filhas de dona Dalva, tio Joaquim, todo mundo. Riram e riram muito, riram dele, cê besta rapaz, e riram, riram, riram. Tio Joaquim foi o que mais riu. Olga, pode tirar esse tabaréu do castigo que ele já aprendeu.

Foi assim que se tornou ateu. Me contou essa história enquanto tomávamos Fanta Laranja e assistíamos à apresentação da Esquadrilha da Fumaça.

Emanuella Sombra escreve às quintas-feiras, quinzenalmente

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