Para Luciana Lemos

Estou fazendo um filme desde sábado. Não saí da sala de edição, embora a montagem esteja definida: uma tomada estática e silenciosa da galeria 3 do MAM, onde foi exposta O LIVRO de água, de Karina Rabinovitz e Silvana Rezende, será sucedida por um plano da passeata contra o pastor Marcos Feliciano quando esta descia a Avenida Sete na altura do Mosteiro de São Bento, chegando na Castro Alves. Do ponto mais alto da ladeira, vê-se melhor a bandeira gay.

Essa bandeira é uma conquista: fica bonita em todo lugar.

Agora que o filme está montado, saio de uma sala e entro na outra. Assisto.

Na saída, comento o encontro entre os dois espaços: vi um museu vazio e uma praça cheia de gente cujos passos são um jeito de conquistar o mundo. Isso eu vi no cinema.

Quando segurei a câmera, vi um segurança na sala. Se sua presença não fosse contada esse documentário seria uma mentira. Então decidi que o segurança estivesse no corte final do filme: é uma presença que reforça todas as outras ausências. Estávamos eu e a instituição.

Se o filme fosse uma ficção eu diria que o segurança falava ao celular.

A exposição tem a ver, em geral, com sustentar o imaterial pelo físico. O livro… usa projeções, cadernos e madeira. Tentativa de entender a arte contemporânea: “a que circunda e aponta algo que existe sem se ver; arte que não diz, localiza”. “Postura artística que é no tempo e no contexto”.

Mas não havia tempo naquela sala sem gente que pudesse senti-lo. A sala vazia é a noite do artista, o fim da arte, o raiar da arte sem fim. Até porque o sentido nasce num cruzar de olhos (Hitchcock e Wittgenstein).

De volta ao cinema. Eu disse que a praça estava repleta, mas estava prestes a estar repleta: encerrei o plano quando a passeata tocava o pé da ladeira, chegava no início da curva e desaparecia na esquina. Na montagem eu quis dar a entender que a praça ia ficar repleta, mas o “depois”, a parte que não entrou no filme e que a conversa na saída da sessão revelou, desmentiu isso também: havia pouca gente.

Não sei se gosto do resultado. Mas torço que se note o esforço: o esforço cinefílico de se antecipar ao signo, de olhar como a praça poderia ser, se estivesse repleta de gente.  De pensar como a galeria poderia ser, se estivesse repleta de arte. Ou talvez estivessem, e eu é que não entendi o filme que tentei fazer.

Diego Damasceno escreve às terças

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