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Um amigo meu – de quem consigo lembrar a feição, porém não revelarei o nome por trata-se de respeitável pai de família, de certo tempo – não muito distante, perfeitamente memorável, costumava bradar em tom de voz alto, grave e pausado, escorado no balcão do bar, com a mão direita para trás, escondendo-a antes de fazer sua pedida para a rodada de ‘palitinho’:

– A pior vida de solteiro é muito melhor que a mais agradável vida de casado.

Falava com a mesma confiança que encarava os adversários para tentar adivinhar quantos palitos de fósforo haveria na soma total das mãos. Na hora da decisão, repetia sem traço de titubeio o seguinte ritual, mesmo sendo dele o primeiro palpite: Fitava o rival nos olhos, balançava a cabeça, coçava o ombro com o queixo e mirava o teto de amianto do bar. Disparava:

– LONA!

Sim, ele gostava de arriscar. Tal meandro, entretanto, não desabonava sua missiva anterior, pelo contrário. Sua natureza meticulosa e confiante concedia-lhe ar de conselheiro. Eu que já houvera lido Dom Casmurro um par de vezes alcunhei-lhe de PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO, parte porque gostava da expressão, parte porque havia um tom de liturgia em suas falas. Com sua presença, a resenha depois do baba, meiões arriados ao meio da canela, ganhava ares de homilia quaresmal, regada a cerveja, acepipes e badófis típicos de bar.

– Te repito, cabeça [chamava a todos de cabeça, indiscriminadamente]. Não há porque comparar a vida de solteiro com a de casado. Seria de uma covardia miserável. O homem quando se casa abre mão de inúmeras delícias que só a vida de solteiro proporciona. É como  morrer para nascer outra vez, com outra personalidade, outras obrigações. E se tenta viver casado da mesma forma como quando era solteiro, é um canalha. Não merece consideração.

Extraídos os acentos machistas, católicos, eurocêntricos, monogâmicos, etílicos e hiperbólicos da fala de meu amigo protonotário, devo admitir com a autoridade que a minha solteirice convicta e desafortunada permite: Há delícias inefáveis na vida um solitário bon vivant. Uma das principais dela: Paquerar sem peso na consciência pequeno burguesa, flertar como se não houvesse amanhã. O flerte é a pista das marotices da sociedade, onde toca de tudo: Dance desbragadamente até achar seu par, independente da música: Pode até ser Zezé de Camargo & Luciano em ritmo dance.

Pois foi numa mesa de bar, em mais uma de minhas saídas para coletar material para o interminável GUIA MODERNO DO FLERTE E OUTRAS MAROTICES que acabei descobrindo a última novidade em matéria de paquera: O aplicativo TINDER. Uma rápida pesquisa revela mais detalhes: Foi criado por um brasileiro [e o Brasil já é um dos cinco países que mais utilizam a ferramenta] cresce de 5 a 10% o número de usuários por dia, cada pessoa acessa em média 11 vezes por dia e permanece conectada 7 minutos a cada acesso.

O Tinder vem para substituir a pracinha do seu bairro, a fila da padaria e a secção de achocolatados do supermercado. Não precisa abaixar o vidro blindado da SUV no trânsito. Ao invés da arriscada piscadela no sinal vermelho, o Tinder vai usar o GPS do seu ESPERTOFONE, traçar um raio próximo e localizar as pessoas do sexo oposto disponíveis, cruzar os dados de idade e fotos do seu perfil no Facebook e voilá: Eis um cardápio do flerte cibernético, como bem definiu uma amiga que estava na mesa de bar comigo dois parágrafos acima.

Não se trata, como pode parecer, de uma desconstrução do mito romântico da paquera. Não é a ‘modernidade’ destruindo a maneira autêntica e salutar da interação entre as pessoas. É uma readequação da dinâmica do flerte aos costumes atuais, da ocupação das cidade dividida entre condomínios e shoppings, com um imenso engarrafamento entre eles. Se eu for na praça de Pirajá para encontrar minha musa encaracolada de vestido de chita, andando de monareta com a cesta cheia de gérberas, dificilmente terei sucesso.  Mas posso encontrar uma musa encaracolada que use chita, tenha uma monareta e goste de gérberas através do Tinder. O aplicativo mostra interesses e amigos em comuns.

O Tinder é a nova janela com gelosia por onde Capitu paquerava o menino que vendia rapadura no início do século, enchendo Bentinho de ciúmes. É apenas a virtualização dos territórios sociais da paquera. Um simulacro para onde transportamos nossos anseios, só para pegar carona na ideia de nosso amigo Baudrillard, que vez por outra cito aqui.

E como pontuou outra dileta amiga da mesa de bar, as pessoas não precisam se sentir diminuídas, ou desesperadas por estarem procurando parceiro através de um aplicativo. Afinal, elas apenas estão transportando o acaso daquela trombada na fila do banco, aquele esbarrão na hora de escolher o tomate, para a intercorrência tecnológica de um dispositivo. O acaso ainda é nosso amigo. Só que ao invés da piscada de olho correspondida, temos o MATCH [termo usado quando dois usuários se curtem mutuamente e abre-se uma janela para conversação].

No início de outubro, foi encontrado o seguinte bilhete dentro de um livro, no Rio Grande do Sul, no acervo do jornalista, poeta e historiador Othelo Rodrigues Rosa, que nasceu em Montenegro em 1889 e morreu em Porto Alegre em 1956.

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É certamente o bisavô do Tinder.

A paquera será o eterno refúgio dos corações solitários, independente do suporte. Por que é essa marotice que torna a arte da conquista uma agradável tentativa de arrancar sorrisos bobos e suspiros apaixonados.

 Alex Rolim escreve às quintas

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