Johnny, por favor não conte nada disso pra ninguém, na moral… preciso desabafar e sei que você não vai achar estranho, entende? É que, porra, umas coisas vêm passando por minha cabeça. Gabriela, saca? Acho ela linda e tudo, tem aquele corpo que me deixa viajando, e a gente consegue uns papos bem legais. É diferente mesmo. Mas não vou ter como apresentar lá em casa… Gabriela tem, sei lá, um jeito meio desengonçado, fala muito às vezes. E o pessoal lá tem bons modos, sabe, cara? Assim, minha mãe tem toda aquela pose, é dita mulher elegante e tudo, e repara quando a menina não tem muito conserto. Quer dizer, eu não entendo disso não, mas imaginando o olhar de minha mãe, acho que ela vai bater assim e dizer: “Essa menina… Não sei não”. E Gabriela ainda alisa o cabelo às vezes, sabe, e tem uma pelugem no braço. Ela tem mais pelo que o normal, saca? E aí, imagine Letícia, aquela minha prima que você acha massa, encara Gabriela e pensa: “Caraio, é isso aí que ele tá pegando?”. Letícia tem todo aquele cabelo natural, é perfumada, jeitosinha, a família toda admira. O parâmetro fica alto, sabe? Como é que eu vou colocar na família algo menos? Acho que entende… Naquele dia que você saiu com Mirela, uma noite antes tava todo desanimado, mas bastou o pessoal dizer que você era um cara de sorte e tal, você passou a sair mesmo e taí namorando. Viu que te admiravam com ela. Quando eu fui ao cinema com Gabriela, não senti isso. Ela falou um troço bem bacana sobre aquele filme de guerra, lembra? Fiquei viajando na ideia. Mas não senti tanto entusiasmo do pessoal. E às vezes, quando eu tô andando na rua, não tem tanta gente que fica olhando. Eu sei que você não gosta quando dão aquela secada em Mirela, é claro. É foda,  mas, pô, sei que lá no fundo sabe que é você quem vai tar com ela de noite e o boiola que olhou não, e o boiola fica pensando: “pô, aquele cara é miserável”. Isso deixa a gente mais satisfeito. Meu pai mesmo quando viu uma foto no face não bateu no meu ombro e disse: “Porra, filhão”. Aquela coisa dele quando ganhei a medalha no judô ou passei na faculdade. Tipo, não é um orgulho, sabe? E ele tem inclusive aquele lance sobre cotas, sobre bolsa-família, fica xingando de tudo o que é jeito, e eu me pergunto se ele acharia que Gabriela só porque é meio bronzeada entrou por cotas, sei lá. E não, pô, Gabriela é esforçada, inteligente, entrou na federal e tudo, mas sem cotas. Ela estudou numa escola até bacana lá do bairro dela. Você até jogou lá na época da escola, não? Um que fica no Cabula? Bom, nisso eu fico viajando no dia de minha formatura. Todo mundo lá e tal, um dia especial pra porra, e ela entrando como a minha acompanhante. Tipo… a gente de repente em vários fotos, e ela lá com a penugem, com os cabelos bem menos produzida que Letícia, e o pessoal pensando: “ele agora formado, merecia algo melhor”. É foda. Acho que vou chamar ela pra conversar… Mas, porra, Johnny, eu não sei o que dizer.

Saulo Dourado escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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