Dentro de nós há uma coisa que não tem nome,
essa coisa é o que somos (José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira)

Começou a me contar de quando fez a guerra na Guiné.

De como era lutar por algo que não acreditavam, do valente que eram os rebeldes e do inóspito que era o lugar; de quando foi alvejado no braço e conseguiu, não sabe como, pousar o helicóptero (o co-piloto teve o corpo atravessado por uma bala e morreu antes da aeronave chegar no chão); da angústia pelo resgate e da demorada e sofrida recuperação – que deixou sequelas.

Recordou também do amigo que, antes do sol aparecer, se levantava e ia para o pátio do quartel escutar o único disco (de uma só música) que havia: por alguns minutos era feliz em meio ao terror; e falou do quão comovido fica quando aquela canção, vinda de algum lugar, invade seus ouvidos e resgata lembranças de quatro décadas.

Falava de momentos duros, mas com ternura e saudosismo. E me arrisquei a perguntar:

– E o senhor sente saudade daquela época?

– Não sinto saudade da guerra, de matar pessoas, do medo de morrer… mas sinto saudade, sim. Sinto saudade de ter 26 anos, sinto saudade de mim.


* Visitante, Ricardo Viel escreve neste domingo; o Residente, Ricardo Sangiovanni, retorna na próxima semana

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