Era uma das primeiras matérias que fazia para a revista — talvez mesmo a primeira — e ele me botou sentada ao seu lado para lermos juntos aquelas páginas todas. Em um determinado momento, não entendeu o que escrevi (naturalmente a parte de que eu mais me orgulhava, por ser a mais pretensamente poética) e perguntou sem cerimônia: você acha que o leitor mora na sua cabeça?

Me mandou refazer aquilo de uma forma clara (vamos sublinhar a palavra), ordem que cumpri com contrariedade.  O episódio poderia terminar aí e eu teria sempre o caso para contar, mas foi essa pergunta maldita que passou a morar em minha cabeça, com o agravante de que a pessoa não tinha qualquer estatura para figurar no lugar de mestre ou mentor.

Por mais que eu tenha tentado nesses poucos anos em que escrevo, nunca fui capaz de descobrir onde o leitor está, nem tenho nenhuma pista.  Sempre que começava a reportar, o que buscava era fingir que estava contando uma história ao mesmo tempo em que puxava um banquinho para ele sentar-se. Queria que fosse prazeroso e próximo assim. Mas isso é algo que se faz com conhecidos, quando já sabemos tudo que podemos pular  — há um afeto compartilhado em silenciosamente inferir o que não precisa ser dito.

Não é, decididamente, o caso do leitor, de quem só sei com certeza absoluta que não mora na minha cabeça. Então é preciso ser impessoal, cristalino, plano, tedioso para informar a todos e ao mesmo tempo a ninguém.

Atenção você que me lê — onde? como? por que? — o que disse no último parágrafo é recalque. Quem veio ao mundo para escrever explica tudo que precisa ser explicado e permanece sublime. Para o seu próprio bem, saiba diferenciar uns dos outros.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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