Hoje é quinta de lava-pés. Pessoalmente considero um dos ritos mais significativos, representação de uma das passagens que mais me comovem no Evangelho de Lucas.  Neste trecho do Novo Testamento, Jesus usa uma parábola para explicar sobre humildade e perdão. O Nazareno compara a recepção que Simão, O Fariseu, lhe ofereceu, com fervorosa acolhida que uma mulher pecadora – não há citação a Maria Madalena, a quem atribuem autoria do gesto – obsequiosamente lhe concede.

Usando a dialética com maestria, Jesus narra a estória de um credor que, ao perceber que nenhum dos dois devedores possuía fundos para pagar-lhe, perdoa igualmente a dívida de ambos, ignorando o valor de cada uma. Nesse momento, pergunta marotamente a Simão, O Fariseu: Qual deles o amará mais?

– Suponho que aquele a quem mais perdoou.

Elementar, caro Fariseu. Jesus vira-se para a pecadora e arremata com o trecho transliterado abaixo:

“Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta mos regou com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, porém, desde que entrei, não cessou de beijar-me os pés. Não ungiste a minha cabeça com óleo, mas esta com perfume ungiu os meus pés. Por isso te digo: Perdoados lhe são os seus pecados, que são muitos, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.”

A partir disto, replicando costume da época, Jesus lavou e enxugou os pés dos apóstolos antes da Santa Ceia, em sinal de hospitalidade e humildade. Não há gesto mais humilde que o perdão.

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Semana Santa sempre foi um feriado especial para mim. Uma data marcada pela reunião da família, entremeada pela mesa farta, conversas animadas e idas à igreja para ensaiar e representar a Via Sacra. Pode surpreender quem me conheceu na última década, mas como católico praticante, crismado e líder de grupo de jovens da igreja na época, estive em diversos papéis do martírio cristão: Soldado romano, o sumo-sacerdote Anás, o apóstolo Pedro, e o último que representei: Simão, O Cireneu.

Há dois anos renunciei até mesmo a salada de bacalhau de minha tia. Estou agora em um flat na Rua Augusta, e estas boas recordações vêm como sintoma bom de saudade, de algo que me orgulho de ter vivido e precisou perecer para que pudesse ganhar a real dimensão que possui hoje. [Desculpem-me por emular Caetano e misturar espaço-tempo com emoções, mas alguma coisa acontece no meu coração].

E acredito, hoje, que houve um significado especial em ter representado Simão, O Cirineu, na minha última apresentação. Este Simão, que estava de passagem, sequer acompanhava o martírio, foi convocado para carregar a Cruz de Cristo até Gólgota, local da crucificação.

Independente de ter sido convocado à força por uma milícia armada, coube a Simão, O Cirineu, a difícil tarefa de ajudar a quem não conhecia, por um motivo que também desconhecia. Algo que nos ocorre cotidianamente, sem que percebamos.

No fundo, somos todos Simão. Algumas vezes Fariseu, outras, Cirineu.

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Após três décadas de catolicismo, acabo de me converter a uma nova igreja.  A Igreja PL da Cura pela Palavra. Sou um fiel entusiasta, apesar de pouco ir aos cultos. O Purgatório, entretanto, se propõe a divulgar essa nova fé e arrebatar novas ovelhas.

James Martins é meu pastor, e Fernando Pessoa não faltará.

Palavra da Salvação.

 Alex Rolim prega às quintas

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