Sabe lá o que é ter que dormir na casa do cara que acabou de terminar o namoro com você? Penso que o digno seria por os óculos escuros para esconder as lágrimas e sair batendo a porta. Penso eu, que já bati a porta e tive que voltar em seguida, porque esqueci de levar os óculos escuros. Mas sem dinheiro nem cartão para o táxi no meio da madrugada, não é possível manter a cabeça erguida e só resta virar para o outro lado e tentar dormir sem sufocar com as lágrimas. E depois contar a história.

Me pergunto se há mesmo um jeito digno de sair de uma relação, ou melhor, de ser convidado a se retirar dela. Fazer a linha fleumática é mais patético do que se jogar no chão e cantar Ne me quitte pas, não só pelo fato de ser tudo fingimento. É certo que você vai poder se orgulhar da sua fortaleza, mas não vai ter uma história que alguém queira ouvir. “Uma vida boa é uma vida boa de ser contada”, disse, lá nos idos de 2007, o psicanalista Contardo Calligaris, em entrevista concedida a mim e a Tatiana Mendonça. Por conta disso, na impossibilidade de ficar no pedestal, em caso de pé na bunda, recomendo ir ao pólo oposto e chafurdar na fossa, ouvir toda a discografia de Alcione, fazer uma versão mais pobre e menos trágica do Sofrimento do Jovem Werther.

Na ocasião citada, Calligaris ainda falou sobre a importância da ficção para a nossa vida: “É no cinema e na literatura que a gente aprende a amar e a viver. O sujeito moderno aprende a viver na ficção. A partir do momento em que já não há códigos nem normas de conduta, você tem um imenso repertório de vidas possíveis nas quais você vai encontrando inspiração”.

O que me faz pensar em quão pouco inspirador é um romance em que o protagonista passa por seus reveses sempre de modo equilibrado. Claro que não é preciso transformar a vida em uma abertura de exame de DNA no programa do Ratinho, mas há seu charme, sua literariedade, em dar barraco na boate e jogar aquela velha garrafa de Heineken na pessoa amada. Desde, é claro, que dar barraco por aí não se torne um problema frequente ao ponto de comprometer a sua vida social. Os amigos vão comentar por anos? Vão. Vão fazer piada sempre que possível? Sim. Mas vai sempre haver ali, onde antes havia apenas destempero e em seguida ressaca moral, uma história boa de contar.

Pedro Fernandes é o convidado especial desta quinta

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