Fato:

“No Brasil antigo (…), uma das caracterizações externas da condição escrava eram os pés descalços. Assim os sapatos eram, para o negro, o símbolo de sua libertação e de seu nivelamento aos brancos. Tanto que, quando um escravo era alforriado, sua primeira preocupação era comprar um par de sapatos. Embora muitas vezes não agüentasse calçá-los, trazia-os sempre consigo”*.

*LOPES, Nei. Dicionário escolar afro-brasileiro. Selo Negro: São Paulo, 2006. p. 153.

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Quando Piúba cruzou a porta, Venâncio estalou os beiços e esteve por um triz de mandá-lo arredar-se, mas viu que na mão direita ele trazia um par de botas de couro sem um respingo de lama, ao contrário dos pés descalços. A maledicência, que tinha por ninho a língua de Venâncio, quis indagar se as botas eram roubadas, mas o sorriso de Piúba tratou de calá-la. Se para Venâncio havia gozo maior que aquele que sentia com a futricagem, esse advinha de ter a algibeira pesada, atrapalhando-lhe o andar mais ainda do que o corpanzil já o fazia, uma vez que gostava de levar o dinheiro nas ceroulas, entre os bagos, de modo que sentisse nas virilhas o ressonar dos metais, balangando a cada passo. O sorriso de Piúba trazia promessa de peso às ceroulas de Venâncio.

Piúba bateu com as botas sobre a madeira do balcão.

— Venha de lá uma pinga, seu Venâncio — pediu com satisfação. — Bote uma pro sinhô também.

— Vejo que estás a celebrar — disse Venâncio, apontando para as botas com um movimento de lábios, enquanto servia as doses, cuidando para não derramar.

— Tô forro — anunciou Piúba, dando ao santo sua parte. — Saúde!

Pediu mais duas antes de olhar para os fundos do estabelecimento e perguntar ao dono:

— Lindinalva taí?

— A esta hora deve estar a dormir. Mas há outras aí.

Piúba enfiou a mão no cano da bota e tirou de lá um saquinho de estopa fechado em um nó. A intensidade do estampido que se ouviu quando o saco caiu sobre o balcão fez Venâncio arrepiar-se.

— Acorde Lindinalva — disse Piúba. — Mas, primeiro, ponha mais uma aqui.

Logo os passos do português silenciaram atrás da cortina que ele atravessou e que dava acesso à casa. Ruído, só o de fora e o das moscas, amontoadas sobre o pano que cobria os queijos. Mesmo assim, Piúba acreditava poder ouvir o diálogo que se dava em um dos quartos do fundo da venda.

— Ó, Lindinalva, aquele negrinho está aí fora.

— Que negrinho?

— O que vem sempre espiar-te e que já tentou por umas duas vezes comprar algumas horas contigo.

— Ah, sei qual é! Pois mande-o embora. Se até São Pedro pôde negar Cristo três vezes, não serei eu quem abrirei mão de um terceiro não. Não estou disponível para escravos.

— Ele diz que é forro agora…

— Lorota!

— Não me parece. O gajo tem sapatos.

— Como disse?

— Sim, ele trouxe sapatos. Botas, para ser mais preciso. Bons calçados, solas duras e sem buracos. Couro de boa qualidade.

— Hm… Seria possível?

— E tem mais, Lindinalva.

— Mais o quê?

— Mostro-te já — Venâncio enfiaria a mão nas calças e tiraria de lá o saco que Piúba lhe dera. Desde que o recebera, sabia que teria de mostrá-lo a Lindinalva, mas isso não o desmotivara a guardá-lo entre os bagos, junto à algibeira, enquanto percorria a distância entre balcão e o quarto da moça. Sentia, ao retirá-lo de dentro das ceroulas, a mesma satisfação de quando pusera as mãos sobre ele pela primeira vez, talvez melhorada pelo cheiro doce das virilhas que emanava do pacote agora.

Lindinalva levaria a mão à boca, sem conseguir esconder o sorriso de excitação.

— Por essa eu não esperava! Que surpresa! Ande, seu Venâncio, não deixe o rapaz lá fora, pensando que lhe quero mal — diria por fim. — Mande-o entrar, mande-o vir cá.

Contudo o fim do diálogo na mente de Piúba não coincidiu com o tempo de conversa real. Seu Venâncio não vinha nunca. Resolveu, então, espiar atrás da cortina. Acercou-se da passagem, sorrateiro, e espreitou.

Um corredor escuro e comprido levava a um pátio interno, que era extensão da varanda de uma casa geminada à venda. Piúba notou agitação no ambiente, um ir e vir de moças em camisola, burburinhos, vezenquando um gritinho agudo. Prosseguiu sem pudores, seguindo o alvoroço. Ao alcançar o pátio, deu de frente com uma turba de senhoras empurrando-se uma às outras para tentar avançar caminho à entrada de um dos quartos. O susto que elas tiveram com sua presença facilitou-lhe o trânsito até onde elas mesmas queriam chegar. O cômodo estava apinhado de gente, contudo só havia uma pessoa na cama: Venâncio, de calças arriadas até os joelhos, o rosto vermelho e os olhos meio vesgos.

Lindinalva e outras duas mulheres tinham as mãos mergulhadas nos pentelhos do homem. Uma delas puxava-lhe para cima o pênis, que estava mais para flácido que para rígido, intumescido desproporcionalmente no meio, como uma pequena serpente cuja presa engolida moldasse-lhe o ventre. A outra tentava afastar os pelos que atrapalhavam a tarefa de Lindinalva, de desatar o nó cego que obstruía a circulação sanguínea do membro, feito com um barbante que também atava a algibeira e o saco que Piúba tirara de dentro da bota. Venâncio bufava, gemia, praguejava contra os santos e contra as benfeitoras. Lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos.

— Estou a sufocar! — guinchou ele.

— Não tá não, seu Venâncio! Que pinto não respira! — disse Lindinalva.

Seu afobamento em nada ajudava. Algumas moças vinham até ele, acariciar-lhe os cabelos, o peito, pedir-lhe calma. Outras se debruçavam sobre os genitais do patrão, opinando às que atuavam sobre o foco do problema que essas deveriam tentar este ou aquele método. Havia aquelas, mais impacientes, que tentavam aos empurrões tomar o lugar de Lindinalva e de suas ajudantes. Tesoura e faca apareceram, porém, sempre que se tentava usá-las, Venâncio se debatia com violência, manifestando em clamores o medo de ser castrado acidentalmente. Nisso, os poucos avanços que Lindinalva conseguira eram logo perdidos pelos espasmos do homem. Novas ajudantes tiveram de ser convocadas, para o manterem imóvel.

— Estou a sufocar! Dói-me demasiado o peito!

— Ele disse pinto ou peito? — sussurrou alguém ao lado de Piúba.

— Disse pinto!

— Disse peito!

— Foi pinto, mulher!

— Estou a sufocar! — continuava ele, gemendo.

Piúba encostou-se na parede e tentou entender a cena em sua complexidade de personagens, atentar-se ao papel de cada um e, principalmente, descobrir como diabos aquilo podia ter começado, entretanto era difícil pôr ordem ao raciocínio em meio à algazarra. Enquanto pensava, os gemidos de Venâncio foram aumentando. Tendo conseguido arrancar um braço do imobilismo, o português levou a mão ao peito e, de repente, os estrebuchos cessaram. A moça que o afagava caiu no choro.

— Seu Venâncio morreu, seu Venâncio morreu…

A lamúria espalhou-se feito coceira ruim. Piúba viu Lindinalva soltando o pênis do homem e usando as costas das mãos para esconder o rosto. Quis aprochegar-se, entretanto, antes que o corpo tomasse impulso para frente, foi imprensado contra a parede quando, não se sabendo quem começou, a maior parte das mulheres de dentro e de fora do quarto lançaram-se sobre as virilhas do morto, disputando a tapa o dinheiro e o ouro que ele carregava ali.

No quartinho aglomerado, Piúba começou a ficar sem ar, como duas ou três moças que haviam desmaiado há pouco a seus pés. Por sorte, mover-se na contracorrente e sair do cômodo foi mais fácil do que imaginara. No meio do pátio, acocorou-se para tomar fôlego, enquanto reparava que algumas mulheres as quais ele vira de camisola, agora, trajavam roupa de sair. Essas corriam em direção ao corredor que dava na venda, carregando trouxas e quantos objetos pudessem levar a tiracolo. Notou uma delas beijando demoradamente dois dobrões, talvez tirados do montante que pertencia a ele. Pensou em gritar-lhe que o dinheiro era seu, mas foi tomado por um desânimo, por um estoicismo que o calou. Antes de juntar-se às moças que seguiam pelo corredor, olhou uma última vez para o quarto, na esperança de ver Lindinalva. Não a viu.

Na venda, as moças também disputavam os itens das prateleiras. Do lado de fora, os transeuntes assistiam a tudo paralisados. Começou uma briga entre duas mulheres, e uma garrafa veio espatifar-se aos pés de Piúba. Ele então se lembrou das botas. Saltou por sobre os estilhaços e andou até o balcão, para reavê-las. Não as encontrou. Debruçou-se sobre o balcão, imaginando que pudessem ter caído do lado oposto em algum momento. Não estavam lá. Uma garrafa esvoaçante raspou-lhe o cocuruto, e ele achou melhor continuar a busca agachado, engatinhando. As moças saltavam-lhe, como se todos estivessem em uma grande brincadeira.

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Breno Fernandes escreve às terças

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