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Por Daniel Cabral

Toda vez que vó Maria chora de dor nas pernas, ou escorrega e cai quando tenta se levantar da cama, ou coloca o controle remoto no ouvido achando que é o telefone, eu me lembro daquela foto.

Eu nunca entendi minha avó Maria. Meu mundo tinha comida farta todo dia, empregada doméstica, um quarto para cada membro da família e água quente. Meu mundo era uma cidade luminosa construída ontem, que só tinha olhos para o amanhã.

Vó Maria vem de outro lugar. Minha avó é da gente semi-analfabeta, abandonada pelo marido, que come de boca aberta e que perdeu os dentes há muito tempo; gente que esconde fumo na barra da saia pra mascar nas tardes solitárias. Vó Maria é de cidades sertanejas empoeiradas e sem nome, que já nasceram em ruínas.

(Para ser honesto sempre evitei entender minha avó, porque meu mundo na verdade era frágil e eu temia que ele ruísse junto com o seu, pobre e mudo. Sim, eu me envergonho disso.)

Vó Maria, quando nos visita em casa, senta na ponta do sofá e usa o banheiro de empregada, porque é tão humilde que acha que é isso que lhe cabe na vida.

Vó Maria perdeu a voz quando eu era um bebê, então nunca conversamos realmente. Os filhos de dona Maria, que conseguiram fazer curso superior e tem todos os dentes, puderam pagar médicos para tentar dar jeito em sua voz, em vão. Não há explicação médica para o que a aflige, mas vó Maria segue sussurrando, a duras penas, palavras poucas que quase não se ouve.

(Curiosamente, quando a prima Tonha aparece para visitar e pega o violão empoeirado pra lembrar serestas antigas, vó Maria canta. E ao cantar, os sussurros dão lugar à uma voz frágil e bonita de menina.)

Vó Maria, eu suspeitava na infância, era triste desde sempre. Quando cresci descobri que na verdade era triste desde 1964 (ou 65? ninguém se lembra ao certo): um dia minha avó se deitou na cama, chorou por dias e não quis mais levantar. Quando ela finalmente saiu debaixo do lençol, alguma coisa ficou pra trás. Desde então ela é assim, triste.

Mas como eu ia dizendo, toda vez que vó Maria chora de dor nas pernas, ou escorrega e cai quando tenta se levantar da cama, ou coloca o controle remoto no ouvido achando que é o telefone, eu me lembro daquela foto.

No carnaval do ano de 1938, usando um batom escandalosamente vermelho (presumo eu, já que a foto não tem cor), vó Maria é uma figura alva de asas abertas num denso quintal sertanejo. Ela ergue o rosto de um jeito que eu nunca a vi erguer e sorri, despudorada e — porque não? — levemente lasciva.

Alguém (ela mesma?) toscamente acrescentou, a lápis, lânguidos cílios aos olhos pequenos dessa mulher de ombros estreitos. Também escreveu o ano em questão quatro vezes sobre a foto, como para ter certeza de que nunca esqueceria o carnaval em que abriu asas e sorriu.

Eu nunca ouvi realmente a voz de minha avó, esta mulher triste há mais de cinquenta anos que eu não entendo. Mas na foto que seguro agora em minhas mãos, essa mesma mulher me olha de queixo erguido, durante o carnaval de 1938 e fala, ou melhor, grita: estou viva.

E eu escuto.

Avó Maria de asas abertas

Daniel Cabral é convidado do Purgatório nesse sábado.

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