Há uma cidade no mundo, sei de garantia porque estive lá, em que o tempo persiste como em outras eras. As pessoas não lembram, por não ter importância, de olhar para o relógio, mas se alguém com vícios de fora indaga que horas são, sempre encontra o dia três, às vezes até quatro horas atrasado. Por exemplo, quando se acorda, é oito, e depois de fazer tantas coisas que em qualquer lugar já estaria próximo de meio-dia, lá passaram-se no máximo quarenta minutos.

Talvez seja porque é fácil chegar de um canto a outro, de a pé mesmo, por tudo ter a distância da dimensão humana. Some-se ainda que se pode, sem medos ou angústias, mandar os meninos fazer favores. Menino, vá comprar o pão! Menino, veja se tem lá uma agulha que a minha se perdeu! Menino, vá comprar uma cerveja que com esse calor não tem Cristo que aguente! E o menino vai, não chateado, porque acostumado.

Nesse lugar, que jurei não dizer onde fica, a noite chega só depois de um dia tão grande que dormir acaba sendo, antes de gosto, obrigação. E a gente não se sente cansado, e a cabeça parece que esvazia, porque é tudo tão claro, e há a certeza de que, não importa a causa, dará tempo. E se por algum terremoto não der, será que havia mesmo tanta serventia de ser?

Mas o fato é que lá, nessa cidade, já há nascidos, não se sabe bem por que, que querem por tudo mudar, ir, fugir, escafeder, tomar rumo definitivamente sem volta, porque não suportam tempo tão vagaroso. E ouviram dizer que há outros lugares, distantes, em que maravilhas encontram-se em cada esquina, brilhantes, barulhentas, gordas, confusas, vivas. O que eles querem, por tudo que é mais sagrado, e sem mais jeito de esperar nem por um segundo, é testemunhar acontecimentos.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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