Estou, amigo que me lê nesta quinta, temporariamente desempregado. Dado que lhes anuncio – sem nenhuma sombra de pesar – senão porque é informação essencial para o bom entendimento desta anotação que lhes ofereço hoje.

Quando estive empregado, perdi as contas de quantas reportagens escrevi sobre o sistema de transporte público da cidade de São Paulo. Em nenhuma delas, porém, pude dizer o que realmente me fascina a respeito dos coletivos – revelação que fiz a Camilla Costa, n’outro dia, dentro justamente de um deles, o Apiacás cor-de-laranja que nos levava de volta a nossas casas, aqui nas Perdizes.

Venci a vergonha, o medo do ridículo, e confessei a Camilla que sinceramente sinto, ao ver apontar o ônibus que me levará a meu local de trabalho, emoção semelhante à que sente um torcedor ao ver seu time de futebol entrar no gramado. Em minha fantasia, espocam fogos de artifícios e esvoaçam serpentinas e papéis picados quando vejo apontar na esquina da curva da rua de baixo o Praça Ramos (igualmente-cor-de-laranja, da mesma linha do Apiacás) tão aguardado. E toca o hino do ônibus (cada linha tem o seu): “Vamos, vamos, Praça Ramos, para a luta nos levar! Vamos, vamos, minha gente, a labuta começar”. E toda a Nação Praçarramense perfilada celebra a chegada do veículo que conduzirá cada um a mais um dia suado de trabalho.

Camilla, entusiasta de minha imaginação mais até do que eu próprio, esvaiu-se na risada gostosa e frouxa que ela, acho, só tem para mim, levando-me obviamente junto. Mas ao tornar à casa, não pude deixar de pensar que, ora!, não irei a diabo de trabalho nenhum amanhã. Afinal, estou desempregado! E, portanto, deveria estar triste e rabugento, estressado, intratável com a família em casa… enfim, qualquer coisa de ruim, jamais rindo com minha amiga – que, moça que só me enche de orgulho!, tem um emprego de que gosta.

Fato é que não estou. E que, se por um lado torço para encontrar um emprego logo, por outro, torço mais ainda e secretamente para que quaisquer propostas que me possam conduzir a postos de trabalho onde eu não me sinta devidamente valorizado tenham pés mas não me alcancem, olhos e não me vejam, e se afastem de mim como as armas de fogo, cordas e correntes se afastam de Jorge. Não pretendo nenhum trabalho dos sonhos, empregadores do meu Brasil; o que é justo não querer é ir trabalhar com sofrimento.

Aliás, a esse propósito, valendo-me da inspiração que a companhia da supracitada moça produz em meu espírito, elaborei um novo modelo para o regime trabalhista no Brasil. É coisa para um futuro que provavelmente não verei e tem algo de comunista, é verdade; mas deixemos em suspenso conotações ideológicas e avaliemo-lo:

1) Todo brasileiro deverá trabalhar 8 horas por dia, 40 horas por semana. Jamais mais.

2) Por quatro dessas horas, será livre, durante toda a sua vida, para fazer o trabalho que quiser. Terá direito a justa remuneração.

3) Pelas outras quatro horas, fará um trabalho obrigatório, determinado pelo Estado, com igual direito a justa remuneração. Terá obrigatoriamente que mudar de atividade a cada dois anos, sem repetição.

4) As atividades obrigatórias serão de natureza completamente diversa. Um exemplo: um cidadão (chamemo-lo hipoteticamente Fausto de Souza) no primeiro biênio será carteiro. No seguinte, repórter de uma revista feminina. No terceiro, inspetor de contadores de energia elétrica. No quarto, irá capinar na roça. No quinto, fabricar e vender sorvetes. No sexto, professor… etc.

5) Nos primeiros seis biênios trabalhados, serão privilegiados trabalhos que exijam esforço físico, de modo a explorar o frescor corporal dos cidadãos. Sem excessos, porém.

6) Férias de 28 dias, duas vezes a cada ano solar.

Parágrafo único: os cargos de deputado e juiz só poderão ser ocupados no horário estatal, e mediante sufrágio universal.

De modo que não seria raro encontrar por aí diretores-executivos de multinacionais que varrem a rua, jogadores da seleção brasileira de voleibol que empacotam mercadorias no supermercado, proprietários de veículos de comunicação que consertam motores de motocicletas, artistas plásticos premiados que trocam lâmpadas de postes, paraquedistas que prestam atendimento ao público no guichê do Tribunal Regional Eleitoral… enfim: a miríade das combinações de um só Fausto é infinita.

Desnecessário dizer que Camilla novamente desmilinguiu-se em risos.

Mas é um modelo que me inspira mais felicidade. Seríamos todos quem queremos; seríamos todos quem precisamos ser.

Até lá, sigo procurando um emprego convencional.

Ricardo Sangiovanni escreve excepcionalmente nesta quinta. Ele trocou de turno com Camilla Costa, que escreverá nesta semana no domingo

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