Para Marta e Xavi

Entendidos em futebol desdenharão. Especialistas em arquitetura dirão que tem graça, mas que faz pouco ou nenhum sentido. Mas dois sagrados deveres jornalísticos – o de informar e o de preencher o espaço vazio na página – obrigam-me a levar ao conhecimento público a suposição (a descoberta?) a que cheguei graças à indesejável (à saudàvel) ignorância que cultivo nessas duas áreas do saber. Foi o que me levou a buscar respostas para uma na outra, e então afirmar: chama-se futbol-gaudì o que atualmente anda jogando o Barcelona. E é, afirmo sem medo de trair a memória, o futebol mais bonito que já vi um time jogar.

Baseio tal postulado, como sempre, em notáveis evidências (que me corrijam, por favor, os respectivos entendedores, já que ajo de boa fé):

1) Gaudì intervém na paisagem urbana com um traço curvo, retorcido, derretido, redobrado sobre si mesmo. Sua inspiração, como comprovam fotografias de matreiros postes disfarçados de árvores na praça da Sagrada Família, em Barcelona, é a lógica (ou ilógica) do traço da Natureza. A natureza da bola, por sua vez, é correr, princípio que o time de Messi segue à risca: os jogadores se deslocam, mas quem corre, naturalmente, é a bola.

2) A beleza de tudo o que leva a assinatura de Gaudì não está só na parte vistosa, monumental, das obras. Cada rodapé dá a impressão de ter sido delicadamente concebido; cada poste de luz, além de iluminar a vida de quem passa, parece estar sempre cheio de coragem para afirmar, mesmo morando na rua: “eu sou uma obra de arte”. Do mesmo modo, não há, no jogo do Barça, lugar do campo onde se troque um passe feio. Não é só na hora de fazer gol que se joga bonito: também na retaguarda de Puyol e companhia sai-se jogando com uma graça tão deliciosa quanto arriscada, que arranca primeiro o arrepio, e depois o sorriso maravilhado dos catalães. E de todo aquele que aprecia, mais do que o futebol bem jogado, qualquer coisa feita com artisticidade nessa vida.

3) Observei que o Barça de Xavi, seu motor, avança sobre o terreno adversário com um toque de bola quase sempre lateral, em uma sequência rápida e desritmada, que forma espirais de arco ora longo, ora curto, nas quais o adversário, quando se dá conta, já está envolvido. Perdido. Como que tonto. É o que acontece com o olhar de quem observa uma obra de Gaudì.

4) Aos que ainda não estão convencidos por falta de prova empírica, sugiro este curioso experimento: a) assista a um jogo do Barça e trace a linha que a bola percorre ao passar, de pé em pé, pelos jogadores de azul-e-grená; b) recomece o desenho a cada minuto, um centímetro acima do traçado encerrado no minuto anterior; c) ligue as pontas de cada linha às da linha imediatamente superior. Fiz a experiência na semana passada: o resultado (pasmem!) foi um croqui, perfeito, de Gaudì.

Mesmo com todos esses argumentos, haverá quem se insurja contra meu olhar encantado. Dirão que incorro em clichês e que, ademais, o artístico Barça perdeu nesta semana para um Real Madrid eficiente, porém pobre de idéias. Responderei que a arte, meus amigos, não vence sempre, infelizmente. Mas, mesmo quando engolida pela burocracia, ela está sempre ali, para quem quiser ver. Como as coisas de Gaudì.

*Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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