Uma caixa se abre, no centro do palco, sobre uma tenda de circo. Um casal de anões se equilibra em uma base que gira, ela de bailarina, ele de fraque. Dança e acrobacias. Do alto, o palhaço que acompanha seu próprio funeral observa.

É uma caixinha de música encenada pelo Cirque du Soleil. É tão delicado e bem feito, que me espanto quando percebo que aquele número do espetáculo Corteo (cortejo, em italiano) poderia ser realizado apenas por um casal de anões. Dois adultos criariam uma realidade inconcebível para representar aquela caixinha de música que parece caber nas nossas mãos.

Me surpreendo ainda mais quando imagino que apenas aquele casal de anões, e não outro, poderia fazer aquilo. Como encontrá-los? E eles estavam ali para encantar a platéia com a “magia da perfeição”, mas, ao mesmo tempo, nada simétrico, nada mecânico, o “encanto da imperfeição”.

Tudo muito natural. Os movimentos mais difíceis, as piruetas em câmera lenta são executadas com a máxima facilidade por aqueles braços e pernas curtas. E por todos os mais de 50 artistas acrobatas, e, por que não, atores do circo.

Uma filosofia de vida fascinante. Trabalhar muito, treinar ao extremo para ser natural, para honrar o corpo e a natureza.

Cada um parece ser feito para aquele papel. Um encaixe perfeito para criar a imperfeição da arte, o deleite do encanto. Voltei a ser criança com aquilo.

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