Quanto tempo dura um sonho?

Certamente essa é a pergunta mais estúpida que já utilizei para abrir uma crônica. Ela possui todas as respostas do mundo e nenhuma é plenamente aceitável. Há sonhos que duram a vida inteira. Outros não ultrapassam um piscar de olhos. Uns adiáveis. Outros, irrealizáveis. Mas são sonhos, e como tal, nos impulsionam rumo ao horizonte. Para que caminhemos, como a utopia de Eduardo Galeano. E por vezes eles estão tão à nossa vista, que o nosso impulso é quase parar e entregar-se ao devaneio contemplativo. O risco – inerente ao ato – é a miragem sumir no vazio do deserto. E deixar-nos apenas o sol inclemente.

O sonho da Espanha durou exatos 95 segundos, entre o apito inicial do holandês [insira aqui o nome do sacana, copidesque] e a CAFUSA vazar a meta de Iker ‘Carbonero’ Casillas. Sim, a partida foi definida ali, quando DOM FREDÓN – com a força de mil caipisâques e a argúcia típica de quem aborda motociclistas incautas – deu a botinada letal, num contorcionismo que apenas os dotados de rara percepção de tempo-espaço, conhecida no meio futeboleiro como FARO DE GOL, são capazes de executar com tão impiedosa agilidade.

Despreze os intricados esquemas táticos, os números que esquadrinham o SCOUT do jogo, as ESCARAMUÇAS entre os jogadores, o critério dúbio e benevolente da arbitragem, o cachorro- quente sem molho da FIFA, as nuvens LACRIMOGÊNICAS do entorno e todas as outras miudezas. Elas só interessam aos IDIOTAS DA OBJETIVIDADE, essa gente cega que só vê a bola, como definiu para a eternidade o irmão do jornalista que nomeia o TEMPLO do embate. Se a partida durasse 5/7 da eternidade a FÚRIA não faria um gol sequer, logo Júlio ‘Werner’ César e David ‘Varejão’ Luiz foram apenas MARIONETES do GRANDE ARQUITETO quando evitaram os gols catalães, bascos, andaluzes, astúricos, galegos e todos os outros tipos que um dia pisaram naquele pedaço IBÉRICO da Europa.

O sonho dos súditos de [insira aqui o nome do monarca dos caras, copidesque] ruiu quando o menino Givanildo RUQUI – que quase ficou fora da competição com a possível proibição de BAIANAS DO ACARAJÉ pela FIFA – centrou uma bola enviesada que acabou por PERERECAR entre os atacantes brasileiros e defensores espanhóis, enquanto eram cometidas diversas infrações, entre as quais identifiquei três pênaltis claros, duas caneladas, uma PATOLADA e a queda de DOM FREDÓN, que na verdade era uma forma DISSIMULADA de reposicionar o corpo em DÉCUBITO VENTRAL e surpreender a defesa roja antes do chute mortal, numa jogada de beleza DADAÍSTA [de Dadá Maravilha]. Tudo exaustivamente ensaiadíssimo, que fique claro.

Como esse gol ANTOLÓGICO definiu a sorte das equipes, evitarei a FADIGA descrevendo o que ocorreu no restante do DEBACLE dos atuais campeões do mundo. Apenas ressalto que as duas outras TRAULITADAS dos avantes brasileiros ajudaram a transformar a SHOPPING-CÊNICA arena que substitui o antigo Maracanã, num caldeirão fervente de PAELLA, e fosse eu operador de som do estádio, teria ecoado no sistema de som a versão do TRIO IRAKITAN para “Touradas em Madrid” desde o terceiro minuto da segunda etapa.

Mas não posso ignorar o que ocorreu antes, até pelo peso que, parece-me, tal fato adquiriu no ânimo da equipe canarinho.

Em geral acho a retórica e os SLIDES que os treinadores costumam passar na PRELEÇÃO dos jogos da mesma utilidade do Power Point de oração via corrente que chega no email. Entretanto o viés apresentado pelo coordenador Parreira para motivar sua equipe foi deveras interessante: Desde que foi campeã do mundo, a Espanha ainda não houvera enfrentado o Brasil – sabidamente maior vencedor de mundiais da história – logo, a partida serviria para os europeus como uma espécie de LEGITIMAÇÃO do título, aquela RUBRICA final do reconhecimento de firma, o carimbo na faixa que tornaria a HONRARIA de melhor seleção no mundo INCONTESTE.  Passaríamos esse RECIBO frente ao mundo, ou pior, frente à nossa torcida, em nosso local mais SAGRADO? Ou, pelo contrário, provaríamos a todos – inclusive aos próprios espanhóis que ‘com o brasileiro não há quem possa’ que não há TIK-TAKA nem WAKA-WAKA que supere nosso TICO-TICO-NO-FUBÁ? Que o futebol sinuoso que deriva da escola barcelonista pode ser suplantado, também com uso de alguma arte genuinamente tupiniquim?

PARARÁ TIBUM BUM BUM PARARÁ TIBUM BUM BUM.

O sonho espanhol fica adiado, por ora.  Mas o horizonte não está tão longe. É logo ali, em 2014. Até lá, que sigam sonhando e tik-takeando. De cá, aguardamos a próxima tourada. Olè!

 Alex Rolim escreve, excepcionalmente, nesta segunda

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