Luís acompanhou a namorada até o portão, deu-lhe um demorado beijo e esperou que ela manobrasse o carro e partisse. Então, voltou à sala, fechou a porta e se esparramou no sofá. Deu um gole na bebida, acendeu um cigarro e após uma larga tragada começou sua confissão:

– Sou apaixonado por essa mulher. É linda, não é? E louca. Completamente louca, mas sou apaixonado por ela – disse, apontando para a cadeira em que, até minutos antes, ela estava sentada.

– Sim, sim. Linda e parece que também te ama. Sorte a tua – respondi.

Ele terminou o copo de rum de uma vez. Fez uma careta, levou de novo o cigarro à boca e, soltando fumaça, e me disse:

– Sofri muito por causa da Maria, irmão. Foi muito duro.

Não sabia o que dizer, e não disse nada. Ele continuou:

– Ela me quebrou. Fiquei muito mal. Muito…

– E quanto tempo demorou para você superar, para esquecer – perguntei.

Luís, que até então tinha o olhar na mesa de vidro cheia de bebidas e cigarros, me mirou por um tempo sem dizer nada. Deu um sorriso de canto de boca, vitorioso, e falou:

– Não esqueci. Já faz mais de um ano, mas todos os dias, ainda que seja por só uns segundos, penso nela. Por exemplo, agora. O que ela estará fazendo? Será que pensa em mim?

Eu tinha acompanhado todo o processo. Os vi apaixonados, fazendo planos, e depois fiquei sabendo do rompimento. Quando o vi, percebi que ela tinha levado embora um pouco daquele meu irmão.

– Como é que elas conseguem fazer tanto estrago? E é impossível apagar, esquecer, fingir que não existiu. Tudo faz lembrar. Chega a ser uma obsessão. Uma maldição – eu disse.

Luís me olhou de novo e deu outro sorriso. Parecia escolher as palavras antes de dizê-las.

– É exatamente isso. O amor é, também, obsessão. Quem disse que é essa coisa angelical que se pinta? Está a um passo da dor, a um centímetro da loucura. E pensar que tem gente que nunca sentiu isso…

O silêncio ocupou a sala. Luís esticou o braço, pegou o pacote de cigarros na mesa de centro e sacudiu-o. Com a cabeça, me fez um sinal e saímos por mais cigarro.

Cruzamos a rua cantarolando uma música, a mesma que ele, naquele 31 de dezembro, cantou em serenata para ela. Não havia, no mundo, um casal mais feliz. Aquela noite e aquele amor não deveriam ter acabado.

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