só precisou a campainha tocar para que eu vislumbrasse o rio que desaguaria em mim
eu o veria de calça jeans, camiseta verde musgo, sem cinto, cabelos embolados
por trás da porta eu sabia: traria dois pedaços de papel
com alguns dizeres que me arrancariam da órbita
eu diria não
não era hora, não era tempo, eu não queria, não, não, não
sussuria algo como por-favor-não-insista
mas ele não insistiria com a boca, nem com os braços, nem com o peito
ele não insistiria assim, indireto que era, deslizava pelas bordas
escorregadio
e não insistiria
mas mesmo assim – ele tinha essa mágica – eu veria que algo pulsava
e não precisariam mais que aqueles segundos para a muralha em mim
– da China, muro de Berlim? –
virar pó e o chão do meu corpo se abrir bem no meio do meu peito
aí seriam lembranças, memória da pele, reminiscências riscando o meu desejo
eu sabia, sabia de tudo, tudo isso, e me olhava de fora
as palmas das mão estendidas precisando escolher
dor
e vontade
esfreguei as mãos uma na outra
e rodei a maçaneta
um salto para o conhecido

Carmezim escreve às quartas-feiras

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