por André Uzêda

 

Nem o meu castelhano vadio, frouxamente afivelado durante as quatro horas e meia de voo de Salvador até Buenos Aires, foi suficiente para repreender a ignorância audaciosa de um desavergonhado monoglota.

Balbuciei qualquer coisa distante das duas línguas, algo que comprometeria até a existência histórica dos sessenta anos de União Ibérica (1580-1640), para indagar uma bela argentinazinha fervorosamente agitada ao meu lado: “O que vocês estão recolhendo aqui?”. Ao que ela me respondeu: “Comidas, roupas de frio, água e produtos de higiene”,  sem sonegar una sonrisa que talvez fosse capaz de transbordar toda a extensão do Rio Prata.

Estava na Plaza de Mayo, em visita à Casa Rosada, sede da presidência argentina, até um zum-zum-zum característico das grandes aglomerações capturar minha atenção. Perguntei a outro jovem a quem se destinavam aquela pilha de mantimentos. “As vítimas das enchentes de La Plata”, respondeu-me sem mirar nos olhos, preocupado antes em arremessar para outro de sua idade um encorpado saco amarrado por fitas adesivas.

De mão em mão, incluindo por baixo a palma de mais vinte garotos, a encomenda percorreu uma média distância até ser depositada na carga de um barulhento caminhão. Acompanhei o balé por mais alguns segundos, tentando mirar a feição dos voluntários. Fiz alguns cliques e segui meu rumo, provavelmente deixando a impressão de um turista deslumbrado com qualquer acontecimento.

A tragédia de La Plata vitimou 48 pessoas e deixou 2.500 desabrigados, de acordo com a última contagem divulgada pelo governo argentino. Se tal desgraça não é royalty portenho, tampouco a solidaridade que emana dela se faz exclusiva dos nossos vizinhos. Em qualquer parte do mundo ações semelhantes são vistas após catástrofes de proporções coletivas. E no próprio Brasil, em janeiro deste ano, a camaradagem veio à bordo de um tracionado triciclo montado pelo sambista Zeca Pagodinho, ajudando os seus nas alagadas ruas de Xerém, município de Duque de Caxias (RJ).

Dito isto, preciso agora defender a autenticidade deste texto antes que paire sobre ele o mero pretexto de dar publicidade às minhas férias – um projetor de fotografias disfarçado, daqueles de 672 slides por segundo, manipulado pelos parentes que se tornam caixeiros-viajantes e empurram goela abaixo suas reminiscências peregrinas.

A solidariedade portenha teve efeito contraste em mim por algo que acontecia no Brasil enquanto viajava. Uma tragédia particular, carimbada, porém, pelo signo do coletivo. Do grupal.

Um jovem, estudante universitário, homossexual, morto covardemente no Campo Grande (no último dia 13 de abril) de vítima foi enquadrado como culpado por parte da opinião pública, devido a informações divulgadas pela imprensa – sequer confirmadas – de que buscava sexo grupal com moradores de rua.

O menino foi uma vítima da violência. Assim como os 48 mortos pela brutal enchente em La Plata. Não se preocupe que não pretendo aqui teorizar comparações sobre solidariedade entre fronteiras do Mercosul . Muito menos sobre níveis horrendos de mortes provocadas (natureza x homem).

Apenas falo de coisas que mexeram comigo nos últimos dias. E como tragédias tem a capacidade de evidenciar nosso lado mais humano. Para bien ou para o mal.

André Uzêda, convidado desta quinta, é jornalista e viajou com todas as despesas pagas por ele próprio

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