Dos pedacinhos que vejo de Gabriela, a novela, sempre acho Ivete Sangalo fraquinha como Maria Machadão. Mas ela não sabe que eu existo, nem, se soubesse, ligaria para o que penso. Dia desses, a cantora declarou que está se “adorando” como atriz. “Toda vez que assisto, eu falo: ‘arrasou’. Não me preocupo com a crítica. Porque eu mesmo me assisto e eu mesmo me critico e adoro me ver na televisão”.

Imagine a alegria da vida dessa pessoa que, toda vez que se vê, pensa: arrasei. É uma auto-suficiência que me inveja. Suspeito que seus colegas do reino da axé-music compartilhem desse divino modo de ser. O que mais explicaria uma canção cuja letra diz: “Maria Joaquina de Amaral Pereira Góes/ você contribói / para o meu viver“? A certeza do “arraso” viabiliza a rima.

Obviamente, estaríamos melhor servidos se nesse cenário de criação houvesse mais inquietações torturantes, já que a “auto-suficiência” aí tem pouco a ver com evitar concessões. Mas a ironia é que artistas merecedores desse título (poderíamos dizer com “A maiúsculo”?) também não ligam muito para a crítica (ou para o público).

Uma das coisas mais torpes que já fiz como jornalista foi insistir em falar com Mario Cravo Neto, o fotógrafo, mesmo sabendo que ele estava muito doente, em tratamento contra o câncer que por fim o matou. Mas eu precisava de um depoimento dele para um perfil de seu filho, o também fotógrafo Christian Cravo, e por isso liguei, liguei, liguei, até que ele atendeu, justificadamente sem gosto ou paciência. A certa altura, perguntei o que achava do trabalho de Christian. Sem meandros, respondeu: “Ele tem muito a ganhar e muito a perder, como qualquer um. Precisa seguir a própria intuição, o próprio caminho, sem ouvir conselho de ninguém. A opinião dos que estão de fora não importa. A arte é a liberdade contínua de exercício criativo”.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

Anúncios