*Para Ouicho, que me chamou de amoroso e me mostrou Sabines

Editores, diretores e diretoras das grandes e pequenas editoras brasileiras, responsáveis por fazer com que um livro seja lançado no Brasil, mecenas tupiniquins (eles existem?), faço aqui um apelo a vocês.

Sei que poesia não vende no nosso país. Sei também que a, exceção de dois ou três, escritores latino-americanos não fazem sucesso em nossas terras.

Enfim, esqueçamos esses pormenores, e vamos ao que interessa: é preciso, urge, faz-se necessário, fundamental publicar Jaime Sabines. Esse mexicano morto em 1999, aos 72 anos, foi o poeta das massas, foi a voz de gerações. Enchia auditórios de pessoas disposta a escutá-lo declamar suas poesias. Foi tão adorado justamente por ser capaz de falar para e por todos. Seus versos tocaram intelectuais e humildes, jovens e velhos, crentes e descrentes do amor.

Tenho certeza que vertidos ao português esses poemas alimentariam a muitas almas enfraquecidas pela dureza da vida.

Se eu tivesse dinheiro, traduziria e publicaria (ainda que em edições piratas) Sabines e distribuiria aos meus amigos, como se fosse um tesouro – por que o é. Daria também às pessoas que perderam as esperanças, aos resignados, aos que nunca acreditaram no amor ou perdem sua fé nele.

Como não tenho dinheiro, terminarei este texto com um gesto simbólico: a tradução de um dos poemas de Sabines. Um dos mais emblemáticos. Provavelmente o que mais me toca.

E fico na torcida de que estes versos e este texto cheguem aonde deve chegar.

OS AMOROSOS

Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais angustiante, o mais insuportável.

Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.

Seus corações lhes dizem que nunca vão encontram,
não encontram, buscam.  

Os amorosos andam como loucos
porque estão só, só, só
entregando-se, dando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.

Lhes preocupa o amor. Os amorosos
vivem o dia, não podem fazer mais, não sabem.

Sempre estão indo,
sempre, a alguma parte.

Esperam,
não esperam nada, mas esperam.

Sabem que nunca vão encontrar.
O amor é a prorrogação perpétua
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.

Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre – que bom! – estarão sozinhos.

Os amorosos são a peçonha do conto.
Têm serpentes no lugar dos braços.
As veias do pescoço lhes incham
também como serpentes para asfixia-los.

Os amorosos não podem dormir
porque se dormem são comidos pelos vermes.

Na escuridão abrem os olhos
e neles lhes cai o espanto.

Encontram escorpiões embaixo do lençol
e sua cama flutua como se estivesse em um lago.

Os amorosos são loucos, só loucos,
sem Deus e sem diabo.

Os amorosos saem de suas covas
estarrecidos, famintos,
para caçar fantasmas.

Riem das pessoas que sabem tudo,
das que amam a perpetuidade, veridicamente,
das que acreditam no amor
como uma lâmpada de inesgotável azeite.

Os amorosos brincam de pegar a água,
de tatuar a fumaça, de não ir.

Jogam o longo, o triste jogo do amor.

Ninguém há de resignar-se,
Dizem que ninguém há de resignar-se.

Os amorosos se envergonham de todo conformismo,
Vazios, porém vazios de uma a outra costela,
a morte lhes fermenta atrás dos olhos,
e eles caminham, choram até a madrugada
em que trens e galos se despedem dolorosamente.

Lhes chega às vezes um cheiro à terra recém-nascida,
à mulheres que dormem com a mão no sexo, prazerosamente,
à arroios de aguas brandas e à cozinhas.

Os amorosos colocam-se a cantar entre lábios
uma canção não aprendida,
e vão embora chorando, chorando,
a formosa vida.

Ricardo Viel escreve às segundas

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