Nelson Rodrigues inventava histórias porque achava que assim estaria mais próximo da vida como ela é. Num caderno especial em homenagem ao centenário do autor, a jornalista Fabiana Moraes resolveu fazer o contrário: encontrou acontecimentos que parecem de mentira, mas se passaram com gente de verdade. Em “Álbum de família”, ela conta como Maria Eudócia, mãe de Severina, entregou a filha, aos 9 anos, para deitar-se com o pai, seu marido, de quem engravidou por 12 vezes.

Um dia, cansada de ódio, Severina arrumou R$ 800 para mandar matá-lo.

Segue um trecho (mas prometa ler tudo aqui):

“Foi Maria Eudócia, mãe de Severina, que adiantou. Se o marido tinha que se deitar com outra, que essa outra fosse de casa. Se ele já olhava de um jeito diferente para a menina, que fizesse sua vontade. Severino era bruto e todo mundo tinha medo dele. Sentava na calçada, perto da porta, e limpava a espingarda. Um espetáculo pessoal feito para intimidar. Não falava com quase ninguém. Assim, entregar a menina mais velha podia melhorar as coisas: piorar certamente não ia (mas depois que passou o tempo, piorou). Não ia oferecer Rosa, Marinês, Antônia, Rosinete, Marinete, Marilene ou Joana. Eram pequenas demais. Estavam todas dormindo naquilo o que era a cama das mulheres – um monte de casca de fava coberto com estopa – quando Maria Eudócia apareceu. Pegou Severina pelo braço e levou a filha até a cama do marido. Nunca mais a menina, tinha 9 anos, voltaria a dormir ao lado das irmãs”.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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