Há uns tempos, mais de ano, estava assistindo ao programa de Ana Maria Braga (qual o problema?) e passou uma reportagem sobre uma professora que decidiu viver só no meio da Amazônia, dando aula para suas crianças que vinham de longe quando o rio deixava. Quem também a visitava eram uns ribeirinhos que moravam por ali, para trazer farinha, peixe, agrados. O repórter, impressionado em ver uma mulher tão culta morando na selva, perguntou se ela não sentia falta de conversar com alguém de maiores estudos. E o que ela respondeu eu protejo bem para não esquecer: “Sei algumas coisas de português, história, matemática, geografia. Mas não sei fazer farinha, nem pescar. Cada um tem seus conhecimentos e ignorâncias, ninguém vale mais nem menos por isso”.

Lembrei dessa frase porque outro dia ela foi revisitada, também na televisão. No GNT Fashion,  a apresentadora Lilian Pacce encontrou Regina Casé num desses eventos de moda e uma das primeiras coisas que quis saber dela foi como uma moça tão bem educada, ex-aluna do Sacré-Couer, foi se interessar por povo. E Regina, muito fina e elegante, respondeu que  foi justamente por ter tido uma boa educação que aprendeu a conviver com todas as classes sociais. Que uma coisa estava implicada na outra, e era assim que devia ser.

E enquanto esse dia não chega, porque nem sei se estamos habilitados a viver num mundo tão melhorado, vou rememorando o que dizia meu professor de estética, com aquela voz de quem só fala coisas importantes. Quando a gente reclamava que estava ficando difícil o assunto, e mesmo tolerar a vida a partir daqueles conhecimentos adquiridos, ele só respondia: “Lamento, não dá para voltar a ser pescador”, tomando por pescador o homem sem metafísicas, como o Esteves do poema de Pessoa. E a gente se entristecia, porque naquela hora era mesmo o que todo mundo queria, uma condição qualquer de despensar.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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