Caetano Veloso não é o maior compositor baiano da história. Tal posto pertence a Dorival Caymmi. Também não é o melhor músico, superado pelo parceiro Gil. Não é sequer o mais notável da sua geração. Glauber foi mais profícuo.

Não possui a singularidade artística de Tom Zé ou a maestria minuciosa de João Gilberto. Nunca teve a presença de palco de Raul Seixas, a força vocal de Gal nem a capacidade interpretativa da mana Bethânia – apesar de ser muito bom neste quesito.  Escreveu livros sem a beleza narrativa de Jorge Amado e publica colunas que não possuem a verve mordaz de João Ubaldo.

Na fauna artística baiana Caetano é um pato. Faz tudo com razoável competência, mas não é a maior referência em nada.

Esta constatação não o diminui. Pelo contrário. A pluralidade de sua contribuição artística o transforma na maior influência para as gerações que o sucedem. Da sua costela magra nasceram Psirico e Lucas Santtana. Na sua fonte bebem Ivete Sangalo e Virgínia Rodrigues.

Porque Caetano sempre quis ser John Lennon, mas nunca deixou de ser Macunaíma. Cantou London e Santo Amaro com a mesma paixão. Deglutiu antropofagicamente a chula do seu recôncavo e ruminou com o iê-iê-iê britânico. Transitou entre o moderno Oswald de Andrade e o atávico mestre Pastinha com o mesmo requebro nos quadris. Um requebrar meio Mick Jagger, meio Carmem Miranda. Uma coisa assim, bem caetaneada, sabe?

E assim o nome que Dona Canô escolheu para batizar o fiapo humano que rebentou no dia 07 de agosto de 1942 virou verbo, adjetivo, dialeto. O menino-deus virou homem velho. E para provar que o mundo não é chato, polemiza com sua verdade tropical. No léxico da baianidade contemporânea isso é caetanear.

“Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada” diria o franzino Caetano de roupas coloridas que vociferou contra o público do III Festival Internacional da Canção, se lesse esta crônica. O grisalho Caetano talvez fosse mais condescendente: “Achei o texto tão ruim que quis alertá-lo”.

E qual Caetano está com a razão? Provavelmente nenhum dos dois. Caetano envelheceu, ficou (mais) chato – todos ficaremos, menos quem já é por natureza, como eu – mas a velhice traz consigo uma serenidade sábia, de se guardar para o que é essencial.

“Meu coração não se cansa/ De ter esperança / De um dia ser tudo que quer” cantava Caetano no auge dos seus 25 anos, quando lançou seu primeiro álbum, Domingo. Terá logrado êxito? Será que desejou um dia ter a dimensão que possui hoje?

Para nós, meros admiradores de sua arte, pouco importa. Deixemos de caetanices e vamos ouvir, ler, comer Caetano. É para isso que ele existe. Ou não.

                                                                                                                                                                            Alex Rolim escreve caetanices às quintas-feiras

Anúncios