Pra mim é como se fosse uma gripe, mas afeta o cérebro. Vou dormir com uma leve sensação de insegurança e quando acordo estou derrubado, não tenho nem certeza do meu nome.

Vez ou outra a dúvida me pega de jeito e começo a me questionar sobre o por quê das coisas. Ontem, o surto afetou a escrita. Por que escrevo? Pra quem? Alguém se importa com o que semanalmente publico neste espaço? E para mim, faz bem?

Então me lembrei de um poema do argentino Juan Gelman, e acho que encontrei a resposta. Não sei se o poema foi traduzido em português. Eu me arrisquei a fazê-lo. Serviu pra mim, talvez sirva pra mais alguém.

 

Confianças (Juan Gelman)

senta à mesa e escreve

“com este poema não tomarás o poder” diz

“com estes versos não farás a Revolução” diz

“nem com milhares de versos farás a Revolução” diz

e mais: esses versos não servirão para

que peões, professores, lenhadores vivam melhor, comam melhor

ou ele mesmo como, viva melhor

nem para enamorar alguma mulher eles servirão

não ganhará dinheiro com eles

não entrará de graça no cinema com eles

não lhe darão roupas por eles

não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios, nem cachecóis, nem barcos

nem touros, nem guarda-chuvas conseguirá com eles

se for por eles, a chuva o molhará

não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz

“com estes versos não farás a Revolução” diz

“nem com milhares de versos farás a Revolução” diz

senta à mesa e escreve

 

Ricardo Viel escreve às segundas (ou em uma terça, quando a insegurança bate)

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