Tentei, na semana passada, falar sobre o indizível. Sobre esse algo humano, algo puro, que nasce de um lance – não necessariamente decisivo – de uma partida de futebol.

É algo que se dá a ver e nos diz sobre nossa condição, sobre o lado conjunto, comunitário, de ser gente. Uma coisa que nos liga aos outros, de repente e acima de tudo.

Falei de Haedo Valdez. Mas podia falar também de César Cielo, Ronaldo Nazário, Dunga ou Usain Bolt.

Cielo foi pego no anti-doping, mas saiu sem punição. A CAS, o STF do esporte mundial, manteve decisão anterior de apenas advertí-lo.

Na minha opinião, Cielo passou do cinismo midiático, quando vestiu paletó e colocou óculos de grau para ler uma nota diante das câmeras, a uma pretensão que desrespeita o intelecto de quem é seu torcedor: “encerrou” o episódio em entrevista (“virei a pagina”), acreditando que se ele não fala mais disso, está encerrado. E ele, inocentado.

Outro cara para quem torci, Ronaldo Nazário, passou de craque a lobista (ô palavra): ciente de sua influência, vive a empurrar, também via imprensa, os clientes de sua empresa para os clubes do exterior. Um deles é Neymar. Feita a transação, Ronaldo multiplicaria seus lucros.

Quanto a Dunga, que já foi a encarnação do esforço em campo, leio agora que ficou feliz com a eliminação do Brasil. Tudo bem. Mas e todo o discurso de compromisso com a Seleção dos últimos anos, foi parar onde?

Tudo isso me leva, enfim, às batidas no próprio peito de Usain Bolt. Assim ele comemora suas vitórias. Como se dissesse: “eu sou o cara”. “Eu sou único”. “Eu sou Eu”.

Sempre achei que o esporte, mesmo aquele em que se compete individualmente, é sinônimo de coletivo. Um atleta representa, por ele se torce, é símbolo, é ídolo, seu nome está nas faixas, é multiplicado nos uniformes que qualquer um pode comprar.

Mas todos esses exemplos, passados ou presentes, mas no fim contemporâneos, me dizem que isso mudou.

Os atletas querem o melhor de dois mundos: todos os aplausos e nenhuma crítica. Se erram ou deixam de conquistar, se fecham em mundos paralelos, irrealistas, feitos de declarações vazias e pose de vitima. Criticá-los é uma injustiça “por tudo que já fizeram por nós”.

No fim, o esporte já não é plural, é singular. No pior sentido. Vale mais o teatro para a imprensa do que a honestidade (consigo, com os adversários, com a torcida). Vale mais o ego do que o grupo. Vale mais ganhar jogando mal, trapaceando. Está extinta a ideia da vitória que vem durante a competição, e não somente no fim dela.

A meta agora é única – ainda que atenda por muitos nomes para ela: prestígio, dinheiro, fama. A conquista é apenas pessoal.

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O título dessa coluna foi tirado do hino do Flamengo, que já deu aula de futebol, mas ultimamente parece ter mudado de ramo.

Diego Damasceno escreve às terças, mas hoje substitui excepcionalmente nosso autor das segundas, Ricardo Viel, que volta amanhã.

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