– Se você fosse mãe, o que fazia? Mandava pro Juizado de Menores ou pra morar no interior?

Meu raciocínio ainda vagava, tinha acabado de acordar, então não soube direito o que responder. A situação é que o menino estava terrível, bruto em casa, andando com um povo da rua que não era boa coisa e sabia-se que muitos desses fumavam até maconha, se vendo já o dia que a polícia ia chegar e quem sabe se não matava todos e quem sabe se por azar ele não estava no meio e ela ia ter que passar depois para reconhecer o corpo? Deus nos livre.

O máximo que consegui foi perguntar se ele não estava na escola (“vai mais ou menos”) e se não tinha por lá perto de onde moravam uma ONG, um projeto social, algo que desse um envolvimento. Não sabia disso não. Fui procurar e anotei num papelzinho o telefone de um grupo que dava aulas gratuitas de judô. Eles ainda estavam recebendo aluno novo. “Aceitar a gente aceita sempre”, o homem me disse, e seu tom de voz era tão seguro que eu achei de certeza que estava tudo salvo.

Mas vai que hoje estava novamente ainda sonâmbula e ela chega dizendo que o judô não deu certo, porque era longe demais, e mandou mesmo o menino para distante, a irmã tomando conta, e que ele estava triste de estar sozinho, dizendo que lá não vai ficar de jeito nenhum, mas é só até acostumar, não é? Se eu sendo mãe não ia ter feito a mesma coisa? Porque criar filho em cidade grande não dá certo, é muito problema, e ela trabalhando o dia inteiro não tem tempo de orientar, e tudo sem pai, e até um menino da sua vizinha que ia para a igreja e trabalhava vendendo queimadinho na rua, pois até esse achou de fugir de casa e agora era um mendigo que ia até casar com uma mendiga. Ouviu dizer.

E agora estando o caso resolvido, voltou a perguntar se não fez o certo. Queria dizer que ela devia era ter ficado com ele, educando, que assim distante quem sabe o que vai ser, mas só falei que não sabia, ainda mesmo não sei. Só me deu tristeza de que antes dela, de mim e do menino, as coisas teimem em ser assim.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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