Havíamos trocado meia dúzia de palavras no aeroporto enquanto esperávamos pela resolução do cancelamento do vôo. Cheguei ao hotel que a companhia me encaminhou, tomei um banho e desci para jantar. Foi quando encontrei o rapaz novamente, desta vez no bar, tomando um aperitivo. Ele me convidou para um trago e a conversa seguia amena até que comentei que ele aparentava estar cansado. “Não é cansaço, é melancolia”, me disse. E então começou a contar a história que agora relato – e que tem dado voltas na minha cabeça há algumas semanas.

‘Quando eu a conheci, o que me chamou atenção não foi sua beleza, mas seu ar de mistério, de quem diz muito menos do que sabe. Só depois, com o passar do tempo, é que percebi que era a mulher mais linda que eu já tinha visto. A mais linda e mais melancólica. Não sei se eram os olhos, as mãos, a boca pequena e vermelha por natureza… talvez tudo. Tudo nela era uma mistura entre o triste e o belo.
Mas ela se dava bem com aquela aura triste que, pelo que vi nas fotos e a ouvi contar, a acompanhava desde o berço. Mesmo nos momentos mais plenos, mais leves, ela mantinha aquele olhar perdido. Era como se não pertencesse a esse mundo.
Até seu sorriso me doía. E eu, em vão, me esforcei para tentar fazê-la feliz, sem perceber que ela não precisava do que eu teimava em oferecer.
E foi com aqueles olhos, com aquela mão e com aquela boca que ela um dia, sem muita explicação, me disse que não queria mais. Uma lágrima, única, desceu pelo seu rosto e foi sugada pelo meu beijo, o último. Foi a única vez que a vi chorar. Ela foi embora e desde então carrego comigo essa melancolia, que é uma mistura de saudade, de angústia, dor, revolta e, claro, amor. Já faz um ano, mas eu ainda não consigo sorrir (e nem chorar).’

Ontem, ouvi de um amigo que eu parecia abatido, triste. “Não é tristeza, é melancolia”, eu disse. E acrescentei: “Tome cuidado, parece que é contagioso”.


Ricardo Viel entristece escreve às segundas

*escrito ao som de Samba de Bênção, de Vinícius de Moraes

 

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