Tomávamos vinho, papávamos um naco de salame e papeávamos outro dia aqui em casa. Muito mais do que eu, é Alice, amiga com quem tenho a sorte de dividir a vista para o mar sem ondas de nosso apartamento no topo da Paulicéia Desvairada, quem está indignada.

Alice não consegue entender como, de 190 milhões que já somos, apenas 15 brasileiros protestaram em frente ao Congresso, em Brasília, quando nossos parlamentares reajustaram os próprios salários em 62%, em dezembro passado.

Eu observo:

– Espera aí, Alice! Foram 70, e não 15. Não exagera.

Alice não consegue entender como um deputado brasileiro pode ganhar mais do que um deputado na França.

Eu observo:

– Espera aí, Alice! 26,7 mil reais por mês para um deputado não é mais do que na França somente. É mais do que em 16 países, entre eles Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, Itália, Canadá e Rússia.

Alice não consegue entender como o salário do prefeito de São Paulo aumentou na surdina, no início deste ano, de 12 mil para 20 mil reais por mês, os mesmos 62% a mais que passaram a ganhar os deputados – esses probos. Nem como os salários dos secretários municipais irão subir 250% a partir de 2012, de 5 mil para 19 mil reais.

Eu, como sempre, observo:

– Espera aí, Alice! O prefeito disse que vai doar o valor correspondente ao reajuste a um hospital que trata pacientes com câncer. E os secretários, se são muitos, não são tantos quanto são os vereadores – esses igualmente probos. O duro é saber que foram eles que aumentaram o salário do prefeito, sabe por que? Porque só assim podem aumentar os deles próprios, já que o do prefeito é o teto.

Alice não consegue entender como, enquanto isso, ir e voltar do trabalho de ônibus em São Paulo custa, em uma semana, mais caro do que numa capital européia como Paris, que oferece um serviço de qualidade sensivelmente melhor que esse aqui da nossa Sodoma. E que todo ano, aqui, o preço da passagem sobe mais do que a inflação, mas sobretudo mais do que o salário de quem anda de ônibus. “E daí que os custos dos empresários de ônibus também aumentam?, diz ela. Transporte é bem público, tem que ser subsidiado!”

Eu novamente observo:

– Espera aí, Alice! O preço da passagem de ônibus já é subsidiado. Inclusive, quando está perto da eleição, por exemplo, a prefeitura não deixa o preço da passagem subir. Faz questão de pagar, ela mesma, o prejuízo das empresas, porque assim o preço da passagem continua o mesmo. O problema é que, quando passa a eleição, adeus subsídio. E tome-lhe aumento: afinal, é preciso compensar o que foi gasto para segurar o preço da passagem na eleição, né? É o que, neste país, se chama “dar com uma mão para tirar com a outra”.

Alice não consegue entender. Ela é francesa. Simplesmente francesa, nem mais nem menos, nem melhor nem pior do que nós. Ama o Brasil mas diz que, se a coisa continuar do jeito que tá, “desculpa, mas vou fazer minha vida na França.”

Eu observo:

– Espera aí, Alice!

Eu, brasileiro, observo. Observo, observo, observo. Até quando?

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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