Ler Viva o povo brasileiro, do grande João Ubaldo Ribeiro, dá uma sabedoria cristalina do Brasil, mesmo que o entendimento não sirva como consolo, mas persiste valendo como esperança.  Lá pelos fins, um homem vê num baú o nosso futuro – o passado já havia sido mais que contado – e lá estão tantos ladrões fardados (“Niminfales! Jesus Cristo, ói cuma tem!”), mas eles não tocam em dinheiro, porque o “dinheiro não tem nome de dinheiro”.

– (…)  É verba, é dotação, é uma certa quantia, é age, é desage, é numerário, é honorário, é remoneração, é recursos alocado, é propriação de reculso, é comissão, é fis, é contisprestação, é desembolso, é crédio, é transferência, é vestimento, é tanto nome que se eu fosse dizer nunca acabava hoje e tem mais coisa para ver. Dinheiro mesmo é que ninguém fala, todo mundo tem vergonha de falar que quer dinheiro.

Não por ter coisa qualquer a ver lembrei vagamente disso quando li uma reportagem publicada na Istoé desta semana (“O Mapa da Barganha”, de Sérgio Pardellas) que mostrava como os honrosos parlamentares estavam negociando cargos de segundo escalão em troca de apoio em votações mui importantes, como a MP que estabelece “regras especiais” (não é lindo?) de licitação para a Copa. A ministra das Relações Internacionais Ideli Salvatti, que até ontem cuidava dos peixes, tem em sua mesa 184 indicações a encaminhar, no que a matéria chama de “loteamento exigido pelas legendas governistas”.

Vá pensando que quem mais pede (exige!) é o PMDB. É não. O PT mesmo é quem quer 110 cargos; o PMDB, 48; o PDT, 6, e assim por diante.  Um ex-senador para uma vaguinha no Incra, o outro quer virar vice-presidente do Banco do Brasil, e assim por diante.

Assim por diante vamos indo. Querendo muito crer que um dia quem sabe mais terão melhor acesso à educação, e que os mecanismos de controle serão mais eficientes, e que a miséria vai se acabar. Mas enquanto isso os que não falam em dinheiro vão muito crendo que princípios sempre podem ser revistos e que honestidade é mal reversível, então quem é que vai vencer?

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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