Caros leitores:

às 23h57 de ontem, ao fim de mais uma extenuante e banal jornada de trabalho, preparava-me como de costume para apagar as luzes aqui da Redação de O Purgatório e ir para casa dirigindo meu coupé, quando recebi um já não mais esperado telefonema do Senhor F, titular do DEPOC (Departamento Endopsíquico de Proteção Onírica e Censura). Anunciava, para minha surpresa, a boa nova de que o texto que deveria ter ido ao ar em 15 de maio último havia sido desembargado (entenda o caso aqui) e encontrava-se, portanto, apto à publicação. De modo que peço licença a Camilla Costa, nossa titular das quintas, para oferecer-lhes à leitura, hoje, a íntegra do material outrora censurado – cujo valor agora ultrapassa o meramente anedótico, de seu conteúdo em si, para elevar-se a símbolo da resistência pétrea deste pequenino blog, brioso bastião da liberdade de expressão neste país. Neste planeta. Conforme segue:

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(conteúdo original censurado em 15 de maio de 2011)

Resolvi publicar nesta semana uma deliciosa carta de amor que um saudoso amigo meu, José Rodrigo Sacramento – vulgo Guigo Maifrén – mandou em 1986 (há 25 anos, portanto) a Nilma Moreno, então sua (assim quis crer o rapaz) namorada. Guigo, na Bahia, é apelido para Rodrigo. E Maifrén é corruptela infame da expressão em inglês “my friend”. A alcunha era, de fato, uma tradução literal de Guigo: andava feito um rei pela cidade, mandava abrir qualquer boteco, era amigo de todos e quem não o conhecia sabia de sua existência e o estimava de graça, de tanto que o povo falava dele. Perguntem a Vítor Rocha, meu vizinho dos sábados aqui neste blog, que ele confirmará e certamente acrescentará mais detalhes.

A carta punha fim a um conturbado romance. Foi a própria Nilma, também amiga minha até hoje, quem me enviou cópia da carta (o original, diz ela, é em papel de pão) autorizando a publicação (pediu-me apenas que uma intimidade fosse censurada). Uma forma de homenagear o inesquecível Guigo, que faleceu na semana passada vítima de uma insuficiência respiratória crônica contra a qual já lutava há quase um ano. Guigo Maifrén: descanse em paz, irmão; O Purgatório agora abriga você, querido!

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Salvador, 09 de maio de 1986

Nilminha,

se soubesse que era para passar o que ando passando agora, boneca, tem hora que acho que nem era pra ter te convidado pra comer aquele bifão com ovo por cima, arroz e batata frita em nosso boteco lá na beira do Largo. Ou então podia até ter comido o bife, mas não era pra ter te chamado pra a gafieira depois. Ou então podia até ter tomado todas com você por lá, como a gente fez (tá lembrada?), mas não era pra ter te pedido aquele beijo na encruzilhada de madrugada, debaixo de chuva, vento retado que tava. Bem que você disse que não devia, que era casada, que a carne era fraca e que não-sei-o-quê-lá-mais. Mas deu. Foi lá e deu o beijo, sua danada!

Pois é, nêga, o caso é que acabei de arrear de vez desde que soube que você nem quis saber de me esperar voltar, que já arrumou amor novo. Oxe: não era pra eu ser pai de seus filhos, minha flor? Seu futuro esposo? E a neguinha do cabelo duro que você ia me dar? Não falou que me amava, Nilma? Que me amava tanto? E aquele nosso negócio de pele, aquele [CENSURADO] só nosso, minha preta? Achei que você fosse desmanchar tudo com ele pra depois ficar comigo, Nilminha… aí você pega e me aparece já com um terceiro, sua danada! Nem me deixou te trazer pra te mostrar a Bahia, nêga! Queria tanto te apresentar a meu pessoal…

Mas olhe, sinto raiva de você não, viu nêga? Nem decepção, nem preocupe. Só sinto mesmo é uma tristeza danada, fina feito zuada de garfo raspando em parede de tijolinho cozido. Aquela que dá zumbido no ouvido, sabe? Porque te amei de verdade, nêga. Limpinho. Verdade verdadeira maior que essa duvido até que um dia eu vá de novo alcançar. Aceitei te chamegar só ali, na surdina, só pra não faltar o respeito com o outro, feito você pediu. Segurei tanta barra sua, princesa. Dismontei [sic] até o barraco que tava botando pra Neide, só pra ficar com você! Letrei com seu nome o samba que Horácio Jacó me mandou. Lhe cantei tudo quanto é música que eu sabia e ainda aprendi mais as que você gosta. Gastei meu palavreado todo em tanta carta bonita pra você, minha boneca… 

Aí você pega e me larga. Me diz agora que não dá para ser, que ficar comigo até que ia ser bom, mas que não dá porque aí você nunca ia conseguir esquecer daquele outro lá, o de antes. E eu tenho lá nada a ver com aquele porra daquele outro, Nilmão? E ainda por cima me conta tudo corrido, sabendo que eu tô com pouca ficha no orelhão, toda apressada pra sair pra seresta. Carta bonita em papel de borboleta pra dizer que me ama cê mandava, um monte. Na hora de desmanchar tudo, uma cartinha que é bom, explicando as coisas direito, o que foi que aconteceu, pê-pê-pê, pá-pá-pá… nada! Olhe, fiquei puto com essa, viu? Besta sou eu de achar que amor que acaba manda carta de despedida. 

Olhe, Nilma, tô te cobrando nada não. Era que precisava te dizer que tô sofrendo um tantão, e de um jeito que você nem imagina. É, sua danada: você me vê assim, todo rindo, todo amigão de Deus-e-o-mundo, negócio de Maifrén pra lá, Maifrén pra cá… mas tô é numa lama da zorra. Sou baiano, flor, baiano até quando sofre é dando risada. Quando chora é no escuro, enrolado debaixo do lensol [sic], tapando a boca de choro com a mão até o barulho sair pela orelha. Mas é isso mesmo: fazer o quê? Pedir a Pai Fernando de Oxóssi pra botar ebó pra trazer pessoa amada em sete dias é que eu não vou.

É isso, boneca. Tá ruim, mas se Deus quiser melhora. Queria só te dizer que não me arrependo do bifão não. Nem da gafieira, nem da cachaça, nem do beijo. Passar o que eu tô passando é ruim, a gente fica com a boca margando [sic], mas prefiro te ver hoje assim, alegre, florida como tá agora, do que murcha morrendo do jeito que tava na mão daquele traste. Não fui o amor de sua vida, não deu; mas pelo menos servi pra alguma coisa. 

É porque olhe, prefiro você viva, Nilma. Viva, Nilma. Viva Nilma! 

Agora vai, vai ser feliz, vai… me deixa. E seja o que Deus quiser.

Guigo.

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