Esta semana, como em quase todas as outras, me chegou um e-mail de Lourdes Hernández, uma mexicana querida que tem um restaurante na sua casa, na Rua dos Cariris. Os e-mails dela sempre me levam em uma conversa que nunca sei onde vai terminar.

A mais recente terminou com citações a textos em que o escritor argentino Ricardo Piglia fala sobre como Madame Bovary encontrava um sentido para sua vida através dos romances que lia, e como isso é tão humano. Lourdes, na sua leitura de Piglia, vai além:

Gosto desse jeito de olhar a vida, que vai além do ofício de exercer uma arte, tentando fazer com que o que nos acontece não seja somente uma serie de acontecimentos triviais, onde o sentido parece não existir, onde tudo é repetitivo e pouco interessante. Piglia colocava o Quixote como o primeiro exemplo, ele, o Quixote, acredita que esse sentido está no mundo da cavalaria. Para Madame Bovary o sentido está no que lê, em viver uma vida apaixonada como os personagens da novela. Para Ahab o sentido é ir atrás da baleia branca. Porque todos temos a sensação de que o sentido sempre se nos escapa.

Ela diz ainda que Piglia “achava trágica a situação contemporânea onde o sentido parece ser somente externo ao individuo, informação em vez de narração”, e termina dizendo que é assim que ela, Lourdes, entende a cozinha,”como uma narrativa que sobrevive à desmemoria, aos infortúnios, ao inesperado”.

Dias depois, li uma matéria do Guardian sobre bibliotecas públicas, que guardei nos favoritos sem saber exatamente o que fazer com ela. O texto investiga, de maneira afetuosa, qual é o real significado das biliotecas públicas na sociedade, agora que elas estão sendo fechadas por causa do corte nos gastos do governo inglês. Recomendo a leitura completa.

Tem histórias ótimas sobre o que os britânicos liam durante a guerra, quais são os livros mais roubados, sobre o tempo em que os livros mais picantes eram substituídos por blocos de madeira nas prateleiras (se alguém queria um desses livros, tinha que levar o bloco até o balcão e recebê-lo lá), sobre um cara que comia pedacinhos de páginas e outro, que entrava no elevador de uma biblioteca e saia de lá pelado, correndo em direção a um cemitério próximo. “All part of life’s rich tapestry”, diz o bibliotecário que conta a história.

E ele mesmo, Collins, o bibliotecário, diz algo que, novamente, me emocionou (ando emotiva, me deixem):

“The pace of life is different now, and people expect art to happen to them. Music and film do that, a CD will do that, but you have to make a book happen to you. It’s between you and it. People can be changed by books, and that’s scary”.

O maior patrimônio das livrarias, conclui a repórter, são as conversas que elas proporcionam entre as pessoas e os livros, entre pais e filhos, entre o indivíduo e o mundo. “Na verdade, as livrarias não tem nada a ver com o silêncio.”

Hoje, esbarrei com uma matéria do El País com um título lindo,  “Corazones acompasados en un ritual emocionante“. Ela  fala de um estudo recente que comprovou que as batidas dos corações de indivíduos que estão participando de algum tipo de ritual ou experiência emocionante ficam sincronizadas com as batidas dos corações das pessoas ligadas a eles (familiares, amigos, etc) que estejam assistindo, por exemplo, mas não participando da coisa.

A pesquisa foi feita no ritual del Paso del Fuego, um dos muitos rituais e/ou festas psicos da Espanha, em que pessoas pisam em um tapete de brasas carregando outras nas costas. É claro que seus amigos e familiares terão uma descarga de adrenalina pensando na possibilidade de você, sei lá, perder os pés. Mas gostei da ideia de que, de fato, há uma sincronização dos corações.

No último sábado à noite, em uma baladzinha, ouvi uma música dos Smiths da qual eu gosto muito, Ask. Ela ficou na minha cabeça desde então, não sabia por quê.

Quando me sentei, buscando ideias para dar sentido a este texto, percebi que é sobre conexão humana que tenho vontade de falar hoje, e é por estar sentindo alguma falta de conexão com as pessoas ao meu redor que todas estas coisas me tocaram.

No último domingo, uma grande amiga trouxe mais afeto para esta casa, e contamos uma história bonita com o nosso almoço de dia das mães. A história era sobre saudades de casa, das famílias, de amigos e de famílias feitas de amigos. Também nesta semana, me sentei em duas novas bibliotecas que tenho na vida e iniciei um diálogo com livros que há muito queria conhecer.

Tenho tido dificuldade de comentar os acontecimentos nefastos e turbulentos desse primeiro semestre no Brasil, no mundo, no mais-além, porque falo sobre eles todos os dias, no trabalho, com vozes que não são minhas.

If it´s not love, then it´s the bomb that will bring us together”. Não foi exatamente esta a frase, que é daquela música dos Smiths e não minha, mas foi isso o que pensei no dia em que Bin Laden morreu. É o que acabo pensando quase sempre, ultimamente, no fim do dia.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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