1. Em “Cheiro de Goiaba”, Gabo diz que não conseguia discorrer sobre os trópicos porque “dá muito trabalho a gente separar os elementos essenciais para fazer uma síntese poética num ambiente que se conhece demais, porque sabe tanto que não sabe por onde começar e tem tanto que dizer que no final não sabe de nada”. Recorrendo a Graham Greene, descobriu um meio: encontrar em elementos dispersos “uma coerência subjetiva muito sutil e real”. “Como esse método se pode reduzir todo o enigma do trópico à fragância de uma goiaba podre”.

2. Quando o terremoto, aquele, redestruiu o Haiti, ficava vendo aquelas imagens na televisão, mil vezes, mil vezes, e achando tão triste tanta gente morrendo, tanta casa desfeita, tanta criança repentinamente sem mãe. Mas confesso – estou confessando – que não me sentia verdadeiramente tocada. Até que ouvi o repórter no Jornal Nacional dizendo: “as pessoas ficam andando de um lado para o outro, sem ter pra onde ir”. Aquilo me deu tanto desespero que corri para o computador para fazer uma doação para a Cruz Vermelha.

3. Quando li uma reportagem mostrando que a Bahia lidera o número de miseráveis no Brasil, somando na estatística 2,4 milhões de pessoas, e que Dilma quer acabar com todos eles, lembrei imediatamente de uma panela muito preta, retorcida e vazia que vi na casa de uma velha, rodeada de uma renca de meninos remelentos e barrigudos. Essa panela deformada é tudo que sei de pobreza.

4. Quando andava desiludida pensando mal do mundo, vi da janela do carro um senhor muito ereto, de boina na cabeça, descendo as escadas que ligavam sua casa à rua. Ia de braço dado com uma mulher bem mais nova, que imaginei sua filha. Olhando rápido parecia que a ladeava, com o garbo de outros tempos. Apurando a vista percebia-se que era ela quem o amparava. Mas o importante é que o senhor agia como se não desse conta disso. Fingindo bem, relevam-se as circunstâncias.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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