“É como engolir um espetáculo inteirinho.”

Era bom quando ele flertava com o que eu não sabia de lindo do mundo. Ele juntava as palavras como ninguém, sapiência colorida, me enredando, debaixo daquela tenda de pano forte, empoeirado, cor de nada. A tenda era pra ser um circo, mas há muito era só ele a atração principal.

“Tresvariar é ver muito mar nos olhos das pessoas.”

Eu comecei a plantar carinho quando percebi que no silêncio era só a voz dele que se ouvia nas madrugadas do lado de fora do Botina. A gente costumava tomar bebida quente até altas horas por lá, o vidro do bar espesso, a tenda do lado de fora, outro lado da rua, e os sussurros de alguém. Tresvariando.

Eu catava o que era dito, surpresa de mim, navegante de um bocado de belas impropriedades.

“Eu percebo de olhos fechados que olho aberto é desperdício.”

Quando ele atingia bem em cheio em mim, depois de trinta, quarenta minutos pra falar duas frases, eu queria retribuir, mas era inalcançável. Eu recorria a coisas como “passas sem ver teu vigia” ou ” a tristeza é uma maneira pra gente se salvar depois”. Mas era batendo e voltando, a tenda só cheia quando ele não calava.

Passei a sair mais cedo do Botina com frequência, carregando um chumaço de pequenas folhas amassadas que eram as coisas copiadas da noite passada. Não queria perder. Mas ele era intransigente: pegava-me na mão, retirava o chumaço com doçura, olhava pro teto baixo da tenda, iluminação parca.

Eu pedia por dentro que ele parasse com aquelas mãos no ar, desenhando um não-sei-o-quê que me hipnotizava, abria um buraco no meu peito, se encarregava de encher de beleza. E fim.

Era um arrebatar.

“Eu tenho a minha cabeça suspensa sobre seus lábios de cais.”

Foi com ele que aprendi o que é se pode fazer só dizendo. Do Botina nem lembro tanto porque lá eu só me encarregava de me esvaziar pra me encher depois. Quando o circo levantou voo – sim, o circo dele voava! – eu percebi que havia ficado órfã do lado nu do mundo.

Carmezim escreve às quartas

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