É triste ver hoje o Presidente nesse estado em que ele está. Nunca imaginei que a mirada se lhe tornaria estrábica como é agora, essa linha que sai torta do olho esquerdo até cortar, oblíqua, a que do direito ainda sai quase reta, jamais porém direta conforme fora um dia. Nunca mais novamente altiva. Pediu-me dia desses que não o maquiasse mais. Que não mais lhe cobrisse de preto os fiapos brancos da carapinha. Que não mais limpasse a baba que lhe escorre pelo canto da boca enquanto fita a cidade da janela da torre por horas, sentado na cadeira de rodas.

Compreendo, entretanto. Fosse eu o Presidente, também jamais teria esquecido a tragédia. Jamais, como ele, teria podido entender como o inimigo invisível ainda pudera contra-atacar, como tivera forças para impor-lhe ainda a indefectível derrota. Jamais, como ele, teria-me perdoado por ter subestimado a astúcia de Asafa Hamurabi, o único homem, no mundo, fatal mesmo que morto. Jamais, mesmo já depois de quarenta e sete anos passados.

Porque quando nossos soldados entraram no gabinete do Presidente com o corpo do inimigo empalado, perfurada a cara por duas balas – segredo que só ele viu -, acreditou que havia vencido. Acreditou que era o fim da perseguição que já durava dez anos. Sentiu debelada a dúvida sobre se, achado o patife, fora correta sua ordem de invadir e atirar – estava certo: nada de conversa. Não para ele. Para ele, o ímpio, nenhuma piedade.

Não soube o que pensar quando, duas semanas depois de comemorar a vitória com o povo, viu dar na televisão que um novo vídeo de Asafa Hamurabi fora transmitido por um canal do Oriente. Aos que pensam que estou morto, afirmo, vivo, que não morri. Riu. Julgou que fosse chiste. Foi à televisão tranquilizar o povo, dizer que era mentira, que acompanhara em tempo real a captura e execução do inimigo direto da sala de controle do Palácio. E que vira o corpo empalado. E que não e que não.

Não dormiu bem naquela noite, foi o que me confessou anos depois, quando ainda lhe restava energia para cansar-me com monólogos. Porque não levara para casa crença profunda numa só palavra do que havia dito ao povo na televisão. Temeu pelo pior, e o pior foi-se edificando a cada novo vídeo, como hoje já contam melhor do que eu os livros de História. O próximo ataque terá data e hora marcadas; sem surpresas dessa vez, dizia num segundo vídeo, duas semanas depois. Resultará, inevitável, de uma ação coletiva que temos realizado a cada dia de cada mês de cada ano desses dez anos em que vivi escondido, era o conteúdo do terceiro. No sétimo, invocava o zelo do Senhor. No décimo-sexto, prometia castigar os injustos, os gananciosos, os impuros, os infiéis. No vigésimo-oitavo, revelava o dia do ataque; e a hora, no vigésimo-nono. No trigésimo-segundo, explicava o método: membros de suas fileiras haviam plantado, a cada dia dos últimos dez anos, micro-dinamites no interior de minúsculas (de indetectáveis) perfurações clandestinas nas paredes de um importante edifício no país do Presidente.

Novos vídeos não apareceriam até o dia do prometido ataque. Os mais velhos, como eu, ainda se lembrarão do pânico que o país viveu às vésperas da tragédia. Dias de terror. Prédios suspeitos inteiros desocupados para escrutínio, nenhuma grama de dinamite encontrada. O Presidente jamais se perdoou – mas ora, quem poderia imaginar que alguém pudesse plantar dinamites em pleno Palácio? No dia marcado, um domingo, o Presidente foi novamente à televisão para acalmar o povo. No mesmo minuto, Asafa Hamurabi apareceu num insólito trigésimo-terceiro vídeo para anunciar o endereço de sua ação vingadora: West Street, City Hall.

O Presidente jamais se recuperou da perda da mulher e das filhas. Desejou ter estado em casa, e não na televisão, na hora em que explodiram as bombas. Renunciou ao governo e desde então viemos morar aqui, apenas eu e ele, nesta cobertura no septuagésimo-sétimo andar, de onde vê-se tudo. Quando, três anos depois, os homens de Asafa Hamurabi invadiram o apartamento, o Presidente até tentou reagir. Ouviu dos soldados (vestiam trajes de civis; um deles era seu próprio motorista) que não o matariam.

Desde então, é Hamurabi quem manda em tudo. Já faz quarenta e sete anos que eles mantêm este apartamento e todas as regalias do Presidente – eu inclusive, e pagam bem. Proibiram-no apenas de sair. E de pôr cortinas nas janelas – ordem expressa (dizem, mas eu duvido) de Asafa Hamurabi em pessoa.

Nesses anos todos, Asafa Hamurabi nunca apareceu por aqui.

*Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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