Era um compêndio muito didático (ilustrado, até) que mostrava, em 10 dicas, como ter uma existência mais leve. Um resumão dos milhares de livros de auto-ajuda que existem e que ainda serão escritos, com aquelas orientações que só os mais iluminados dos monges budistas conseguem cumprir. O tesouro encontrava-se em local insuspeito: o jornalzinho institucional da empresa.

Li mais como peça de humor do que qualquer outra coisa. Uma das dicas em especial me chamou a atenção. Estava lá no número 9 o singelo conselho: Aceite a vida.

A dica 9 virou piada interna, gasta durante muitos dias, talvez meses. Servia para dor de cabeça, pauta descabida, fim de namoro e anúncios de mega salários de subcelebridades. Era preciso admitir que, apesar do escárnio, advinha daí qualquer espécie de paz, um repouso numa verdade tão milenar à qual só nos restava sucumbir.

Há tempos li na Folha uma reportagem sobre o inglês Daniel Tammet, que tem síndrome de Asperger (um controversa forma do autismo), como o personagem daquele filme. Surpreendentemente, Daniel interage satisfatoriamente com as pessoas e pode até explicar aos cientistas como conseguiu chegar ao recorde europeu de memorização do pi – em 2004, passou mais de cinco horas encadeando 22.514 números.

Ele virou documentário e até escreveu um livro (“Nascido em um dia azul”). O lançamento da obra no Brasil era o gancho da matéria. Explicando como aprendeu a lidar com algo tão fora de controle como o amor, diz que a grande resposta é a aceitação. “Grande parte da nossa vida está fora de controle. Eu não escolhi ser autista, assim como não escolhi ser inglês. Então, eu tive de aprender como ser eu mesmo. E amar é uma parte importante disso, pois é sobre aceitação. Aceitação do outro e de si mesmo, assim como do mundo. Quando você aceita o mundo, você pode amá-lo, quando aceita as pessoas, pode amá-las. E, quando você se aceita, pode se amar também.”

Quando uma inteligência tão superior encontra-se em comum acordo com uma dica banal de jornalizinho de empresa, é preciso admitir que há algo aí. A dica 9, amigos, a dica 9.

*Tatiana Mendonça escreve às sextas

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