N’O Embocadura não tinha vaidade não. As traves eram de madeira mesmo, uma montada na outra, sem prego, só no encaixe. As medidas não eram, de verdade, medidas: iam de acordo com a madeira trazida. No máximo uma serrada daqui, outra dali, mas se fosse meter a fita métrica pra saber direitinho, ia ter pau pra tudo quanto é lado que ninguém ia aceitar ter o gol maior.

Não à toa, os espertos do baba escolhiam sempre o lado que dava pra janela de Mariá. Não que ela fosse uma beldade, não. Era uma velhinha gente ruim, bola caindo lá, só depois de muita prosa e pedido de desculpa pra ter a redonda de volta. O lance mesmo era que no Embocadura, pros lado de Mariá, tinha um caimento que – quem não sabia? – ajudava na velocidade da descida, dava mais facilidade pra bola rolar, um toque de leve ganhava ares de bela enfiada.

Não tinha linha branca pra marcar lateral ou a linha de fundo. Os limites do campo – que a gente chamava de quadra porque era uma coisa intermediária, nem tão grande nem tão pequeno – eram, ao fundo, uns caixotes de madeira que já estavam ali há anos, e nas laterais o mato que crescia teimoso. Saísse do barro, entrasse na grama, tava fora. E não tinha conversa, não, essa era a demarcação, e todo mundo que jogava lá sabia de cor.

Tudo isso pra dizer que foi no Embocadura que eu tive um dos momentos mais felizes da minha vida. Eu gostava demais daquilo tudo ali: quando a rapaziada passava gritando “olha o baba, o baba!”, quando todo mundo ia se juntando na rua, molecotes, umas bermudas batidas, alguns levando garrafinha de água, uns descalços, outros calçados. Eu, sempre descalço. E ser descalço pra mim era motivo de dor. Era pé-de-moça pra lá, pé-de-moça pra cá, só por causa das bolhas que eu tinha já na metade do baba, causadas pelo chão quente e por causa do atrito mesmo, tanta corrida e freiada. E tinha a coisa de ser menos jogador, sem chuteira.

Ainda assim, na primeira metade do baba, eu fazia gol. Era difícil, mas eu fazia. Só não fazia tanto gol bonito quanto Adailton. Rapaz, aquele ali sabia fazer golaço. Na matada, a bola chegava a girar no peito do cara! Sem deixar cair, ele batia, consciente, e a bola ia morrer no ângulo, fosse ele o da trave maior ou menor. Ele fazia de todo jeito.

É aí que entra a minha extrema felicidade. E, pode acreditar, não veio de golaço, não. Quando bateu o par ou ímpar pra tirar o time, eu saí no mesmo de Adailton. Já tava na metade do jogo quando a bola veio redondinha pra mim no meio de campo. As bolhas já incomodavam um pouco. Eu parei, recebi, colei a bola no pé e dei um giro completo. Fiquei de frente pro crime.  A gente tava jogando no campo oposto à janela de Mariá. Era subida, leve, mas que forçava.

Pense assim: quatro segundos. Quatro segundos só pra eu receber, girar, levantar a cabeça e meter o lançamento mais impressionante que aconteceu no Embocadura (não fui eu que disse isso, não, foi a galera), com minha perna canhota. E quem matou a bola sem deixar cair e estufou a rede? (Estufar a rede é modo de dizer, claro, que no Embocadura não tinha rede.)

Aí Adailton veio no trote até mim. Ofegante, disse que o gol tinha sido mais meu do que dele. E eu pensei: coisa de gente modesta, craque é craque. Ele então se abaixou, tirou a chuteira do pé esquerdo e me deu. Disse que era pra eu ficar um pouco mais no baba, que minha canhota ia fazer falta e não-sei-o-quê-mais. Meu pé esquerdo ficou confortável que foi uma delícia. Até esqueci do direito. O Embocadura agora era o estádio da minha consagração.

*Carmezim escreve às quartas

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