O Brasil recomeçou a vida democrática nos anos 1980 com uma marca: as classes A e B – com maior escolarização e acesso à informação – formavam a própria opinião e influenciavam os setores mais pobres. Enquanto aquelas possuíam o poder de formulação, esta possuía o voto. A eleição de 2006, porém, mostrou mudanças. A tradicional classe média urbana retirou o apoio a Lula, mas as camadas populares, indiferentes a esse fato, formaram a sólida base de apoio que permitiu a reeleição do ex-presidente. Em 2010, a mesma base elegeu Dilma sem surpresas.

A mudança foi resultado do processo de inclusão social que estará cristalizado na próxima eleição presidencial, quando a maioria do eleitorado estará na classe C, desfrutando de benefícios do crescimento econômico: acesso a empregos melhores, maior inclusão digital e melhor formação escolar e profissional. Com isso, além do poder de votar, terá melhores condições de refletir sobre o que determinará a continuidade da ascensão social.

A disputa entre PT e PSDB pela hegemonia nessa nova maioria terá que dar conta, portanto, dessa nova maneira de decidir do eleitor brasileiro – e, consequentemente, dos novos temas de interesse que ela gera. De modo que a questão de fundo tende a ser seguinte: como criar condições para que a ascensão social no país continue acontecendo? Mais do que políticas e programas pontuais voltados para educação, emprego e habitação, tornam-se urgentes reformas. O Estado brasileiro pretere os interesses da sociedade. Nosso sistema tributário, por taxar essencialmente o consumo, provoca uma carga de imposto que pesa mais no orçamento de quem tem menos renda. Enquanto isso, a deficiência das políticas públicas obriga a população a ter despesas extras, a pagar dobrado por serviços essenciais. Para ficarmos num exemplo: o reduzido e desorganizado financiamento do SUS faz com que os gastos das famílias com planos de saúde privados e remédios tornem-se essenciais para ter o mínimo de bem-estar.

O PSDB conseguiu estancar a inflação, que prejudicava frontalmente uma parte da população que, posteriormente, ascendeu à classe C. Porém falhou na melhoria da renda e da empregabilidade. O PT construiu políticas com esse objetivo, mas não conseguiu aprovar reformas que melhorassem o sistema tributário e os serviços públicos. Caso petistas e tucanos não atentem para essas demandas, perderão força política para uma eventual terceira força política que encampe a agenda da classe C.

Pablo Solano escreve às terças

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