Aécio Neves não precisou cair na blitz da Lei Seca para que a energia que gastou no início de abril na tribuna do Senado caísse logo no esquecimento. O senador mineiro havia se esforçado para que o discurso marcasse sua estreia na liderança da oposição, mas o tucano que mais conseguiu chamar a atenção da opinião pública foi Fernando Henrique Cardoso e sua conclamação para que o PSDB conquiste hegemonia sobre a nova classe média.

Por meio de uma sintética e provocativa frase – “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os ‘movimentos sociais’ ou o ‘povão’, falarão sozinhos” –, o ex-presidente ofuscou todo o esforço de Aécio, que passou cinco horas em frente ao microfone. Esperava-se do senador um discurso que colocasse no passado o fracassado oposicionismo ao governo Lula, mas ele só repetiu bordões de ex-congressistas do PSDB e do DEM derrotados na última eleição.

Fernando Henrique, por sua vez, colocou uma discussão que se impõe para todas as forças políticas do país. Mais de 56% da população estará na nova classe média em 2014. Tal realidade impõe para qualquer candidato à Presidência a necessidade de apresentar a este eleitorado as garantias de que manterá as oportunidades de ascensão social.

Os tucanos já tentaram a todo custo transformar Fernando Henrique em um personagem do passado. As campanhas Serra 2002, Alckmin 2006 e Serra 2010 – cada uma à sua maneira – se notabilizaram por esse esforço. Passados oito anos e três derrotas, o ex-presidente se mostrou até agora o único tucano capaz de pensar o futuro do partido. O fato não é nada bom para um PSDB que aposta na renovação de quadros para recuperar o espaço perdido.

Pablo Solano escreve às terças

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