O menino quer um tênis que pisca. Ligou só pra falar isso e repetiu, como se fosse surdo. O menino quer um tênis que pisca.

E tinha alguém no mundo que não sabia disso, se era só do que a peste falava? Meu pai vai me dá um tênis que pisca. E ele prometeu mesmo, mas foi só pra parar o abuso, não tinha intenção de gastar o dinheiro que não tinha com essa porcaria.  Mais de ano e sempre isso. Suspirou pra não ter que mandar a mulher pra nenhum lugar e falou pausadamente pra que cada palavra atravessasse a estrada e fosse chegar limpa no seu ouvido Eu fui ter tênis quando já era rapaz, jogava bola descalço e não morri por causa disso.

Pra que serve esse bando de história miserenta que ninguém quer ouvir, ela respondeu, saudade nenhuma no coração, só raiva de ter casado com um homem que não tinha dinheiro nem pra dar um tênis que pisca por menino e nem estava em casa pra aturar aquilo, dia depois de dia. Dê um jeito e traga. Desligou.

O menino tinha era que aprender desde pequeno o que era importante na vida e o que não era, igual seu pai tinha ensinado pra ele com a chinela. Isso não, nunca ia ter coragem de bater no filho, mas precisava ser firme, cumprir a missão de criá-lo homem e direito. Foi com essa ideia decidida até chegar em São Paulo e descarregar o caminhão. Mas aí veio uma moleza, por Deus que quase chorou, e o jeito foi perguntar pra um e pra outro meio em segredo onde é que encontrava um tal de um tênis que pisca pro seu menino.

Atrasou a viagem de volta pra ir comprar o presente. Chegou em casa e nem falou direito com a mulher, podia muito bem ir se amostrar de ser um homem que podia comprar o tênis, apenas não achava certo, um princípio, mas preferiu correr pro menino pra marcar a cara que ele ia fazer quando abrisse o embrulho. E fez bem, porque ele esbugalhou o olho sem conseguir acreditar e riu e o abraçou o e o soltou logo pra poder calçar o sapato e sair correndo mostrando pra todo mundo da rua que ele não era mentiroso.

Acompanhou hipnotizado a alegria do filho e até sorriu pra mulher, que também participasse, e foram os dois ver o menino sair desembestado pelo portão. Na mesma hora repararam, mas sem coragem de dizer nada, que só um pé piscava.

Tatiana Mendonça escreve às sextas