Tava um sol escabroso de quente.

Gilso virou pra mim e disse assim: pra afogado, meu cumpadi, jacaré é toco de salvação. Até hoje não consegui entender direito, mas achei da hora e bonito.

Gilso tem umas capacidade de segurar os conceito na ponta da língua e não deixa nada em armengue. Coisa armeganda né com ele não. E quando ele diz, negão, tá dito, pode anotar e jogar nos peito de quem vier.

Quando ele me veio com essa de jacaré nós tava pra poder ser escurraçado do biombo que a gente vivia. Coisa pequena, cafofo mesmo, um cômodo só, meio inclinado, mas coisa digna.

Eu vivia nos bico e ele nas boca. Eu já tinha dito de responsa pra ele: queridão, esse lance de boca de fumo vai quebrar piau pra você.

Ele, nem aí, me veio com um “possas crê”. Ficou na boca de fumo só até conseguir montar, com o dinheiro da malandragem, um caixote grande pra vender churros.

Gosto, não. Churros é meio fru fru. Mas foi ele que sustentou a residência, meu cumpadi, com o tal dos churros, eu sem parede pra assentar, sem cano pra consertar, sem esquadro pra dar jeito. Sem um faz-me-rir no bolso, mas o cafofo seguiu de pé. Por causa dos churros.

Acontece, minha autarquia, que tudo que é do nêgo, pm vem e toma. Não tinha nota-registro-sei-que-porra-lá e tomaram o bagulho do Gilso. Bagulho, digo assim, bagulho o carrinho, sacô?

Gilso já tomou muita rasteira na vida e eu tava perto pra acompanhar. Nós somos brother desde que mundo é mundo, cada um na sua, cada qual com suas personalidade, porque homem que é homem tem que ter personalidade, não baixar a cabeça. Sabe cabeça baixa de boi quando vai pra o abate, tipo sabendo que vai morrer, aquela coisa triste da porra? Homem num pode ter isso, não, camarado.

POis que agora eu tô aqui. Repetindo essa ladainha de estar sem um tutu pra comprar nem pão dormido. Vim pedi pra você, São Jorge, de pé aqui na tenda dos milagres que é como o povo chama essa casa de santo, pedir por mim e por Gilso. Ele num crê, São JOrge, mas eu tenho fé.

Ele tá lá, quando saí tava no celular dizendo algo do tipo “Destá, jacaré, tua lagoa há de secar”. Pode anotar, São Jorge, se Gilson falô, a lagoa vai secar pra alguém por aí…

Carmezim escreve às quartas-feiras