Arnaldo,

Faz um frio aqui. Meus pés e minhas mãos estão gelados. Mesmo quando está quente o sol não chega nas paredes. As janelas só dão vista para o fundo dos prédios, para as costas de outras vidas. Não dá para ver nenhum carro passando na rua e isso está me enlouquecendo.

Estava lembrando hoje no café daquilo que você falou antes de ir embora. Que eu era uma boa mulher, mas que ninguém devia sentir tudo tanto, porque era cansativo. Tudo tanto. Fiquei repetindo isso na minha cabeça enquanto ouvia o barulho da chave fechando a porta, querendo fingir que não era sobre mim.

Tentei fazer um poema. Tanto tudo/Tudo tanto/Desengano. Ficou ruim, o que me deixou um pouco triste. Se eu soubesse escrever poemas ou pintar quadros, tudo estaria salvo, e isso é certo.

Um dia eu vi uma reportagem sobre um menino que tinha um problema de pensar muito. A atividade cerebral dele era superior a de qualquer outra pessoa, o que não o transformava num gênio, mas num retardado angustiado. Eu vi isso mesmo ou li? Ou sonhei? Bom, o fato é que ele teve que ser operado para ganhar alguma normalidade que o permitisse sobreviver.

Você acha, Arnaldo, que eu tenho isso? É melhor eu procurar um neurologista ou um psiquiatra? Os dois? Mas você falou sentir, não pensar. Então talvez não seja o caso. E quanto ao cansativo, era por mim ou por você?

Eu por mim não sentia quase nada, Arnaldo. Nem por você, nem por essa casa fria, nem por essa cidade que não sabe de mim. Principalmente saudade. Saudade ia ser a primeira coisa que eu ia não sentir no meu programa de sentir menos, que resolvi começar agora. É dedicado a você, como estará registrado na primeira página do livro que não vou escrever contando essa experiência de sucesso.

Essa sua viagem demora?

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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