Já bebi muita água de rio.

Só que ontem algo me subiu pelas entranhas quando pus a mão em forma de concha e bebi um gole do rio que passa pela frente aqui de casa.

A casa tem dois cômodos, sete pessoas pra morar, roça, milho, feijão, duas vacas, um cabrito, um cágado e dois papagaios. De dia a casa é um alvoroço muito grande.

À noite, enquanto todos dormem, molho o pé na beira do rio antes de deitar e peço que me traga uma menina de coração doce e mãos pequenas pra acalmar a minha alma, doída que está por carecer de amor.

Pois que o rio que passa aqui na frente é mesmo um xodó meu, rio de todas as minhas lamentações, insinuações, esconderijos, cúmplice de mim.

Acontece que beber água dele pra mim era normal, até a data exatíssima de ontem. Conto assim.

Era por volta da hora da Ave Maria quando todos da casa já começavam a se recolher para os seus devidos lugares, cada qual com sua parceira ou com filhos ou com o bicho de queridância.

Eu, como de costume, coloquei o chinelo de dedo e fui ter com o rio, para renovar as minhas esperanças velhas, puídas, de ter um amor que viesse com o rio.

Mergulhei o pé na água, fria como a noite estava, e concentrei esforços em pedir. Aí, antes de beber um golinho da água pra molhar por dentro, vi que a água do rio subia ao contrário.

Olha. Tenho 16 anos e sei que rio não corre pra cima. Ele só corre pra baixo. Ou então corre pra dentro, como corre pra dentro de mim.

Aí então vi que era a água falando comigo. Assim mesmo: a água falava comigo, dizendo pra acreditar, pra não piscar, pra ver que o rio estava subindo pra encontrar quem eu quisesse.

E o rio subia, subia, subia ao contrário. E eu não entendia porque subir ao contrário para encontrar alguém que eu pensava que viria na corrente certa, descendo, numa canoa ou num barco bem bonito. Subindo assim era provável que quem estivesse vindo fosse, em bem verdade, se afastando.

Foi quando as águas pararam como um olho vidrado. Nem subiam, nem desciam. Paradinhas como convém ao beija-flor no seu bater de asas.

Eu sentia que o rio ria de mim. Tomei um gole com as mãos em concha e dentro de mim algo se renovou. Foi quando as águas tomaram rumo e eu percebi o aviso do rio.

Na outra beira, algo se movia. Algo como um barco.

O rio ria de mim, da minha futura felicidade.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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